A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Matrioska de jardins

Finalmente, a viagem conduz-nos à cidade-jardim de Moura, com os seus mais de mil pátios, quintais, hortas, poços e tanques de rega. 
De entre as inúmeras manchas verdes que dão título à cidade, destacam-se as hortas do vale da ribeira de Brenhas, nas cercanias do Sete e Meio, rondadas dia e noite por rebanhos badalantes, caçadores de perdizes e apanhadores de espargos. 
De todas as hortas-jardim capazes de deslumbrar, nenhuma iguala a que nos espera ao fundo da rua das Hortas, bem exposta ao sol e resguardada dos ventos dominantes, onde vicejam couves, alfaces, beringelas e demais verduras comestíveis.
Dentro desse jardim, um outro se revela ao longo da álea plantada de romãzeiras em ordem e de ervas odoríferas em desalinho, que não poupam nos seus perfumes e se desenvolvem em terraços a níveis diferentes conforme a inclinação do talude, numa mistura de tamanhos, densidades e cores. Por aqui podemos deambular de olhos fechados, como se jogássemos à cabra-cega dos aromas, num passeio tranquilo e meditativo.
No final desse passeio-deambulato, existe um outro jardim, mais secreto e refrescante que todos os outros, onde coabitam as plantas mais sensíveis ao calor e aridez. Esconde-se sob a figueira, cuja folhagem impede o sol de ver o chão, à beira do tanque espelho de água, de que se assenhorearam ninfas, nereides e alguns barbos e onde abeberam andorinhas e morcegos em voos rasantes, sem lhes pedirem licença. Este é o mais íntimo e reservado dos jardins, que se fecha ainda mais sobre si próprio, e que é a imagem de um paraíso prometido. Este é o jardim em que os desejos despertam todos ao mesmo tempo a assediar-nos.

«Isaura, cidade dos mil poços, presume-se que se situe por cima de um profundo lago subterrâneo. Por toda a parte onde os habitantes escavem na terra longos furos verticais conseguem tirar água, e foi até aí e não para além desses limites que se alargou a cidade: o seu perímetro verdejante repete o das margens escuras do lago sepultado, uma paisagem invisível condiciona a visível, tudo o que se move sob o sol é impelido pela onda que bate encerrada sob o céu calcário da rocha.»

Italo Calvino, As cidades invisíveis, Editorial Teorema, 2002, p. 24. 









quarta-feira, 22 de março de 2017

21 de Março

Leitura de poemas (Pessoa, Camões, Sophia, O'Neill, Eugénio, Shakespeare...). Provas de cheiros e sabores e curiosidades sobre as plantas aromáticas e medicinais do talude da Horta (lúcia-lima, tomilho-limão, hissopo, alfazema, stevia, hortelã-pimenta, absinto, arruda, erva-cidreira, erva-príncipe, erva-do-caril...). Experiências científicas («É ácido ou básico?» e o «Avião a jacto»). Actividades agrícolas (sementeira de coentros, multiplicação de plantas por estacas e plantação de espécies aromáticas envasadas). A alegria e a vontade de descobrir dos pequenos participantes. Que, no final, levaram consigo uma lembrança de um dia especial, em forma de postal carimbado. De toda esta diversidade se fez a celebração, ontem, do Dia da Árvore e da Poesia na Horta Comunitária de Moura. 





 
















terça-feira, 7 de março de 2017

O Fascínio das Plantas na Horta Comunitária de Moura

Sob a égide da European Plant Science Organization, a Horta Comunitária de Moura comemora, a 18 de Maio, o 4º Dia internacional do Fascínio das Plantas. A partir das 11 horas, a Horta abre as suas portas a todos os interessados para uma visita guiada de exploração e conhecimento, seguida de actividades práticas com espécies hortícolas, aromáticas e as consideradas "daninhas" ou adventícias, em que se procurará destacar a importância das plantas na agricultura, na produção sustentável de alimentos, na saúde humana e na conservação do meio ambiente: histórias e adivinhas sobre plantas, provas de aromas e sabores, consociação e rotação de culturas, multiplicação de plantas e plantação de algumas espécies. Para marcar na sua agenda.


domingo, 5 de março de 2017

Dia mundial da Árvore e da Poesia

No âmbito da iniciativa dias verdes da ADCMoura, a Horta Comunitária de Moura celebra, a 21 de Março, o Dia Mundial da Árvore e da Poesia. Do programa constam uma visita guiada, exposição e leitura de poemas e a realização de actividades agrícolas. Com as presenças confirmadas de Fernando Pessoa, Luís de Camões, Eugénio de Andrade, Cecília Meireles, Alexandre O'Neill, Homero, Capicua, Sophia de Mello Breyner Andersen e muitos outros poetas. A partir das 11 horas, na Rua das Hortas, em Moura, uma manhã aberta a miúdos e graúdos. Para marcar na sua agenda.


Alexandre O'Neill


Capicua


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

A horta vai à escola

Todos os anos, a horta recebe grupos de alunos e professores, prosseguindo a sua missão de servir a comunidade. Ontem foi a vez da horta saltar os seus muros e ir ao encontro da escola. A iniciativa, que decorreu no âmbito do projecto Criativos do Bairro, promovido pela ADCMoura, contou com a participação activa do professor Luís Ambrósio e dos alunos da turma PIEF - 3º ciclo, da EB 2+3 de Moura. Em quarenta minutos de aula, que passaram num ápice, trocaram-se ideias muito interessantes sobre plantas aromáticas, medicinais e condimentares, com alusões à morfologia, habitat, cultura, propriedades e principais utilizações. Para facilitar a sua identificação, os alunos dispuseram de amostras de plantas da horta colhidas na véspera. No campeonato dos aromas, a erva-cidreira saiu vitoriosa, cabendo ao absinto a cauda da tabela. Sem surpresas, portanto!
Para combinar com o ambiente informal e lúdico em que decorreu a sessão, nada melhor do que as palavras ritmadas da Ana Matos Fernandes, mais conhecida pelo nome artístico de Capicua:   

erva-de-cheiro

Lúcia-lima cheira a limão
Com seu nome de menina,
E casa bem com o Príncipe
Que dá nome à erva prima.
O Manjerico é tão cheiroso
Que todos passam a mão,
E se tem a folha grande
Já vira Manjericão.

Camomila é uma flor 
Que acalma o coração,
Que deixa o cabelo loiro
Quando bate o sol no verão.
O Orégão cheira a pizza
Ou a pizza é que vice-versa.
Tem a folha pequenina,
Mas perfuma uma travessa!

No chá, no champô, na chiclete,
No elixir, no xarope,
Erva-de-cheiro cheirosa
Crescida no chão do bosque!

Senhor Coentro e Dona Salsa
São um casal caricato,
Ele é um pacato alentejano,
Ela baila salsa no prato.
O Funcho é como um luxo
Chamado de erva-doce,
E na beira do caminho
Cheira a xarope da tosse.

O Louro largou as folhas
Lá no fundo da panela, 
Mas até imperadores
Faziam coroas delas.
A Hortelã é muito fresca
E usada em rebuçados
de mentol, menta, pimenta
P'ra dar beijos perfumados.

No chá, no champô, na chiclete,
No elixir, no xarope,
Erva-de-cheiro cheirosa

Crescida no chão do bosque!

A Alfazema cheira bem
Como a gaveta da mãe,
E deixa o melhor perfume
Que a natureza tem.
A Cidreira é erva boa
Que serve p'ra fazer chá,
E só faz mal à pessoa
Se a pessoa for má!



No chá, no champô, na chiclete,
No elixir, no xarope,
Erva-de-cheiro cheirosa
Crescida no chão do bosque!

Capicua, Mão Verde, 2016.


A preparação da sessão começou na horta...


...com a recolha de amostras de PAM, uma espécie de herbário.


O autor do blogue, na sala de aula.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Rega gota-a-gota

Na semana da Web Summit de Lisboa e para assinalar a entrada em vigor do acordo climático de Paris, o ecossistema criativo da Horta Comunitária de Moura dá a conhecer ao mundo a sua mais recente inovação: a introdução do sistema de irrigação gota-a-gota em todos os talhões de cultivo. A proposta de valor traduz-se em: maior eficiência do uso da água nas actividades da Horta e redução de escorrimentos e de perda de nutrientes do solo, fornecendo às plantas, com precisão, a água de que necessitam. Para além disso, evitam-se longos tempos à espera de vez de regar com uma das duas mangueiras de serviço, como sucedia até aqui. A próxima inovação poderá passar, quem sabe, pela instalação de temporizadores para rega programada e automatizada. Mas isso fica para outro elevator pitch.   
A propósito de distribuição / partilha da água para rega e das formas de direito consuetudinário que lhe andam associadas, atente-se no complexo sistema utilizado antigamente na freguesia de Macieira (Felgueiras):
«Há aí uma água que tem a sua nascente no campo de Grusmão, situado no lugar de Bôro, freguesia de Pinheiro, a qual se denomina água da Levada de Borbela, ou da Maçorra. Esta água, desde o S. João (24 de Junho) até à Senhora da Lapa (15 de Agosto) tem a divisão que passamos a indicar.
Cada dia divide-se em seis partes, a saber: galo, sol-nado, chouzeiro, sesta, tarde e sol-posto; e cada parte constitui o período de tempo durante o qual cada interessado pode utilizar a água.
O galo começa à meia-noite e acaba ao apontar do sol no alto do Ladário (monte sobranceiro à vila da Lixa); o sol-nado tem início logo a seguir e dura até aos oito pés de sombra; o chouzeiro principia aos oito pés e termina aos três; a sexta vai dos três pés aos oito; segue-se a tarde, que termina ao pôr-do-sol; o sol-posto é o período imediato, que finda à meia-noite. 
Para marcar os pés de sombra, o camponês procede da seguinte maneira: - depois de se descalçar e descobrir a cabeça, volta-se para o lado oposto ao sol e, marcando com a vista o ponto até onde chega a sombra, começa a medir os pés que separam aquele ponto do lugar onde se encontra. Como se disse, a medição é feita em pés e não em passos. E, assim, vai encostando o calcanhar de um pé ao dedo polegar do outro, até encontrar o limite da sombra previamente fixado. Se a sombra mede oito pés, estará findo o sol nado e começará o chouzeiro. Esta operação tem de ser feita em terreno nivelado. 
meia-noite, não havendo nuvens, é determinada pelo aparecimento de uma estrela sobre o lugar de Aljão, da freguesia de Agilde, quando a mesma está uma vara de medir acima da linha do horizonte, isto nos meses de Junho e Julho, porque em Agosto é meia-noite quando os sete-estrelos tiverem subido igual medida».

Manuel Bragança, Como se divide uma água, in «Douro-Litoral«, 2ª série, VII, Porto, 1947, pp. 11 e 12, citado por Jorge Dias e Fernando Galhano, Aparelhos de Elevar a Água de Rega, Junta da Província do Douro-Litoral, Porto, 1953, pp. 33 e 34.







quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Cebolas de Agosto

Este ano, na última semana de Janeiro, prepararam-se pequenas parcelas da horta para semear cebolas serôdias. Sementeira feita a lanço, à razão de dez gramas de semente por cada metro quadrado de terra, que germinou passadas três semanas, formando retalhos densos e verdes de cebolinho a necessitarem de monda constante.
Em Abril, transplantaram-se os cebolinhos, já com um bom palmo de altura, para caldeiras definitivas. Plantação à linha, com um espaço de cerca de dez centímetros entre rebentos e uma profundidade "quase superficial".
Muitas sachas, mondas e regas depois, eis-nos chegados aqui, a Agosto, o mês da colheita das cebolas valencianas, com os bolbos feitos a despontar da terra. Farta colheita, por sinal, que deu e dará para todos os gaspachos da estação e ainda para prover as despensas dos nossos utilizadores, com que contam para a travessia do resto do ano.   

Foi há quarenta anos. Em Janeiro de 1976, um sociólogo inglês, Robin Jenkins de seu nome, chegava à aldeia de Alto, nas encostas da serra de Monchique, «numa carripana com dezoito anos» para «se familiarizar com a agricultura numa situação revolucionária», ou melhor, quando a «contra-revolução não cessava de progredir desde há dois meses». Acabaria por ficar até Setembro, tempo durante o qual cultivou, com a sua conterrânea Sheila Young, que aí vivia há dois anos, alguns socalcos arrendados. Sobraram-lhe, por isso, tempo e motivos para registar em livro, de forma impressiva, os derradeiros momentos do quotidiano comunitário dos camponeses de Alto ligado à agricultura de subsistência em equilíbrio com a natureza, antes da sua total dissolução motivada, segundo o autor, pela chegada, em 1951, de uma estrada alcatroada. Pretexto para falar de permanências e mudanças, de tensões contraditórias em desenvolvimento, resultantes do confronto entre estes dois mundos: o velho mundo, da economia de auto-suficiência, e o novo mundo, do "exterior", marcado pela «economia capitalista generalizada». Há também um capítulo sobre o «ano agrícola em Alto», ou sobre o ciclo anual do trabalho, em que as cebolas, a par das batatas, têm estatuto de produto imprescindível no regime alimentar e na economia de base autárcica.

«Agosto

A principal tarefa deste mês é a colheita das cebolas. Ao fim de algumas semanas os bolbos aumentam repentinamente, até cada um ficar a tocar o do lado. As folhas começam a amarelecer e pára-se então a rega, deixando-as a secar durante algumas semanas. Em seguida o cebolal é ligeiramente regado para amolecer a terra; no dia seguinte retiram-se as cebolas que se deixam de lado para as raízes secarem e mirrarem. Daí a um semana estão prontas para serem entrançadas em résteas. O melhor é fazer isto de manhã, quando o orvalho ainda está fresco, de modo a que os caules não fiquem demasiado secos e quebradiços. Têm de ter um grau de humidade exacto - se estiverem excessivamente secos partem-se e se estiverem demasiado húmidos as cebolas caem quando os pés secam. Fazem-se as résteas como uma trança, sendo necessários vários dias para todo este processo estar terminado. São então carregadas por burros até ao celeiro onde ficam penduradas nas vigas. Em Agosto de 1976 as cebolas só custavam 50 escudos a arroba, mas no fim do ano o seu preço aumentou para 120 escudos. Em Abril é frequente atingirem os 200 escudos. No entanto, não há grande vantagem em esperar muito tempo para as vender, pois vão secando lentamente e perdem peso - cerca de 30 % em seis meses. Umas apodrecem; outras grelam e todo o peso vai para os rebentos verdes. No fim da Primavera de 1976, o Elói e a Eulália esperavam fazer muito dinheiro com a venda das cebolas do ano anterior. Tinham-nas armazenado muito bem, nas vigas da forja onde nunca havia humidade e fazia calor. Mas esperaram demasiado e em Maio as primeiras cebolas do Algarve já se encontravam à venda no mercado. Acabaram por conseguir 45 escudos por arroba, tendo visto os preços aumentar de 70 escudos, em Agosto do ano anterior, para 130 escudos em Março e depois descerem de novo.»

Robin Jenkins, Morte de uma aldeia portuguesa (originalmente The Road to Alto, 1979), Editorial Querco, Lisboa, 1983, pp. 55-56.