A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Beringelas & companhia

1.
Além de presentes na nossa horta, o que têm em comum a beringela, o tomate, o pimento e a batata? Serem frutos e tubérculo de plantas da mesma família, a família das Solanaceae, que inclui outros membros nada recomendáveis como é o caso do tabaco, da mandrágora e da beladona, sobejamente conhecidos pela sua elevada toxicidade. Não por acaso, um dos compostos dos quatro vegetais comestíveis é...a nicotina! Assim sendo, chegará o dia em que ficará provado que a nicotina ingerida é tão nociva quanto a inalada, e nessa altura surgirão certamente, depois dos restaurantes sem fumo, os restaurantes livres de solanáceas. Nunca se sabe, mas um hálito a solanáceas pode constituir um perigo redobrado para a saúde pública.  

2.
Taxonomias e vulgares de Lineu à parte, o tomate, o pimento e a batata têm costela do Novo Mundo, enquanto a beringela mergulha as suas raízes no sub-continente indiano. De onde foi trazida pelos árabes para a Península Ibérica, depois de difundida na Pérsia, China e Etiópia. No Andaluz, a beringela, ingrediente base das mais requintadas receitas e a que se atribuem efeitos afrodisíacos, além de outras crenças prodigiosas, parece estar sobretudo presente nos grandes centros urbanos, produzida em grandes hortas como as de Múrcia, Córdova, Granada, Sevilha, Valência ou Santarém. Como bem exalta Ibn Sara Assantarini (justamente um filho da capital ribatejana), num poema dedicado à beringela, "é fruto (...) alimentado por água abundante em todos os jardins".

3.
Já no Garbe remoto, nos actuais territórios rurais do interior do Alentejo e Algarve, não é de crer que a sua difusão e consumo tivessem sido muito expressivos, a avaliar pela exiguidade de grandes manchas regadas e escassa aptidão agrícola dos terrenos. Só em hortas e veigas, como as de Moura, se encontrariam condições para o seu cultivo ser bem sucedido, destinado essencialmente ao auto-consumo e abastecimento dos mercados locais. 

4.
Como quer que tenha sido, ou por razões ecológicas, ou pelo facto do regime alimentar das populações autóctones, marcado por tradições ancestrais e influências do legado romano, se basear em grande medida no consumo de cereais (trigo e cevada), leguminosas cultivadas (fava, chícharo, tremoço, grão, ervilha e lentilha) e ainda de plantas espontâneas (labaças, cardos ou beldroegas), confinando, assim parece, o consumo da exótica beringela ao quadro do quotidiano alimentar das populações islamizadas, ou por razões que a associaram a produto maligno e herético dada a sua popularidade entre muçulmanos e sefarditas, ou considerando a dificuldade do seu cultivo e confecção, ou ainda por não gozar de um especial apreço gastronómico pelo seu insípido sabor e piores digestões, por estas hipóteses ou por nenhuma delas, o que é certo é que a beringela não conseguiu afirmar-se na dieta alentejana, a ponto de não figurar no receituário regional, o que não deixa de ser surpreendente.
E, no entanto, foi a beringela, muito antes da batata, do tomate e do pimento, que primeiro surgiu no território que é hoje o Alentejo, em receitas simples ou requintadas, em combinações com outros vegetais ou carnes, em conserva, recheada, gratinada ou frita, depois de passada por ovo e farinha. 

5.
No século XVI, é a bordo dos galeões espanhóis que a beringela chegará às índias Ocidentais para uma história de sucesso, os mesmos galeões que na torna-viagem trarão os seus três parentes até à Europa para igual senda vitoriosa.  Esta novidade desencadeará uma revolução nos hábitos alimentares do Velho Continente, a que a cozinha alentejana não escapará. De entre o trio recém-chegado à região, destaca-se o tomate, a princípio olhado com desconfiança por ser considerado fruta tóxica e de ruim qualidade, mas que aos poucos vai convencendo os mais cépticos até ganhar o estatuto de indispensável em sopas, tomatadas, cozidos, refogados e afins. Outro que veio para ficar é o pimento, "mejor que pimienta" como escreveu Cristóvão Colombo. Vermelho ou verde (agora também em outras variantes benetton), foi reforçando a sua posição entre os ingredientes mores e hoje é referência primeira no tempero da carne de porco. Quanto à cultura da batata, entrou tardiamente no Alentejo e manteve-se até hoje residual devido a escassez de mão-de-obra e de terrenos regados que por aqui se verifica. Mesmo assim, para a posteridade ficaram receitas de sopas, migas e ensopados.

6. 
Neste Verão criámos condições para que a família Solanaceae se reunisse na horta, como um "ponto de encontro" de velhos primos que há muito não se viam. Na hora da colheita, tirámos tomates para gaspachos e tomatadas, pimentos para saladas de todo o género, batatas para acompanhar o ensopado ou engrossar a sopa... e quando chegou a vez das beringelas, imagine-se, ficámos com elas quentes nas mãos, sem saber muito bem que destino lhes dar, pois, como vimos, não havia receitas alentejanas que nos pudessem acudir. Entre criar umas migas arriscadas de beringela e jogar pelo seguro, acabámos a destapar o melting pot das cozinhas do mundo, numa sucessão de inefáveis ratatouilleduvec, mussaká, imam bayildi...,ou seja, pratos onde a presença da beringela é sagrada. Mesmo assim, não ficámos consolados. À medida que avançávamos por cozinhas mais orientais, demo-nos conta de que a batata, às vezes, e o pimento, outras vezes, não constavam das receitas à base de beringela. Subimos então a fasquia, e, num assomo de querer voltar a juntar plenamente a família desencontrada, fixámos o objectivo de reunir, não apenas na horta, mas à mesma mesa, e no mesmo tacho, a beringela, o tomate, o pimento e a batata. Foi assim que, animados de espírito ecuménico e depois de dias a vasculhar, identificámos o coktail de nicotina que dá pelo nome de Caçarola de hortaliças à napolitana, o tal que confere igualdade de oportunidades, como agora se diz, aos quatro vegetais, nas proporções seguintes (para quatro pessoas): 500 gramas de beringelas, 2 pimentos, 4 tomates, 600 gramas de batatas. Ainda com a vantagem de  termos juntado fumadores e não fumadores amigos à mesma mesa.

A Beringela

É um fruto de forma esférica de agradável gosto
alimentado por água abundante em todos os jardins.

Cingido pela carapaça do seu pecíolo
parece um coração vermelho de cordeiro
entre as garras de um abutre.

Abú Mohâmede Abdalá ibne Sara (Assantarini), natural de Santarém, e que viveu nos séculos  XI e XII, "é um dos poetas mais originais e inspirados do seu tempo", como refere António Borges Coelho no seu indispensável Portugal na Espanha Árabe, de onde este poema foi tomado de empréstimo.


Beringelas da horta comunitária



Tomates da horta comunitária



Batatas da horta comunitária



Pimentos da horta comunitária




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