A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

As curgetes de Orwell

Diga-se trinta e três centímetros. Isto é, um palmo e meio. Ou seja, meio côvado. Para descrever o porte de uma curgete amarela colhida no talhão do amigo Carlos em Julho passado e que nos foi oferecida pelo próprio para uma tajine
Não trinta e três, mas três apontamentos rápidos sobre este legume da família das cucurbitáceas, a que também pertencem abóboras, pepinos, melões e melancias:
1) Na hora da curgete ir à mesa, o tamanho do fruto conta e de que maneira, mas não como seria de esperar. A escolha deve recair nos de menor dimensão, não mais do que vinte centímetros, da inserção do pedúnculo ao ápice.  Podia ser um adágio: se menores e imaturos, mais tenros e saborosos os frutos. Logo, a colheita deve ser prematura, até para evitar o excesso de sementes e o enfraquecimento da planta. 
2) As flores tubulares da curgete têm também assento na cozinha, e cada vez mais, sejam masculinas ou femininas, consumidas cruas, cozidas, recheadas, panadas ou como a imaginação ditar. Mas atenção: uma colheita desregrada pode pôr em causa a polinização e a viabilidade da produção. O mais avisado é poupar as flores masculinas e proceder à colheita dos frutos ainda com as flores femininas acopladas, quando estas já cumpriram o seu papel reprodutor. Ganha-se de três maneiras: um fruto óptimo, uma flor não menos e garantias de uma colheita escalonada até ao final de Outubro.
3) Se o objectivo são as sementes, o caso muda de figura: deve a sua extracção acontecer tardiamente, qualquer coisa como vinte dias após o início do amadurecimento dos frutos na planta escolhidos para este efeito. Depois de lavadas e bem secas à sombra durante alguns dias, as sementes devem ser armazenadas em recipientes herméticos. Se assim for, podem durar dez anos, com o seu potencial germinativo intacto.  
Aqui chegados e tendo resolvido testar a teoria com a curgete desmedida, pudemos (com)provar um epicarpo um tanto duro e um mesocarpo ligeiramente fibroso, mas nada que comprometesse a nossa tajine. Diz-se que em tempos de guerra...

Falar de guerra e curgetes serve de pretexto para abordarmos a publicação entre nós dos Diários de George Orwell, provavelmente o acontecimento literário do último Verão.
Ao longo de mais de setecentas páginas, o autor de 1984 e d'O Triunfo dos Porcos dá-nos nota, numa prosa enxuta e sem rebuços, de uma vida intensa quase sempre no fio da navalha: as viagens da juventude, as experiências duras de trabalho com os apanhadores de lúpulo e com os mineiros no País de Gales, a passagem por Marrocos, a tuberculose que o vitima precocemente, as pesquisas que precedem a escrita das suas obras e os acontecimentos políticos do seu tempo muito marcados pela II Guerra Mundial e pela ascensão dos regimes totalitários. Tudo isto intercalado de entradas mais descontraídas onde cabem observações da natureza e dicas sobre agricultura, paixão que partilha com a da escrita. Primeiro em Wallington, no Hertforshire, quando aluga The stores, em 1936, por sete xelins e seis dinheiros por semana, e, já depois de terminada a Guerra, em Jura, a ilha das Hébridas que escolhe para refúgio do bulício londrino, Orwell dedica-se de forma árdua e competente aos trabalhos do campo, a avaliar pelos Diários. De entre as notas dedicadas ao tema, boa parte delas integrando o Diário dos Acontecimentos que Levaram à Guerra, respigamos as seguintes, escritas entre Junho de 1939 e Junho de 1947, sobre o ciclo anual da curgete:

D 7.6.39: (...) Plantei dois pés de curgetes, cobrindo-os com panelas. (...)
D 8.6.39: (...) Preparei outro canteiro de curgetes, desta vez cavando menos fundo e colocando-lhe cerca de meio centímetro de aparas de relva por cima. Vou comparar os resultados deste tipo de canteiro com o outro. (...)
D 9.6.39: (...) Plantei mais dois canteiros de curgetes e retirei as coberturas dos outros. (...)
D 10.6.39: (...) As alfaces e as curgetes parecem-me bem. (...)
D 18.7.39: (...) As primeiras curgetes já estão a dar flores-fêmea. (...)
D 19.7.39: (...) Já se vê uma ou duas curgetes do tamanho de amendoins. (...)
D 21.7.39: (...) Esta manhã, abriu uma flor-fêmea de curgete; fechou de novo à noite, portanto presumo que foi fertilizada. (...)
D 11.8.39: (...) Cortei hoje a primeira curgete. (...)
D 7.10.39: (...) Descasquei e tirei as sementes de uma curgete grandinha (com cerca de 45 cm), e reparei que, depois de o fazer, só ficou cerca de 1,2 kg de polpa. (...)
D 12.10.39: (...) Cortei as folhas das curgetes para as deixar amadurecer. Deixei uma em cada planta, uma delas bastante grande. (...)
D 26.10.39: (...) As dálias enegreceram imediatamente (com a geada e o gelo), e receio que as curgetes que eu deixara a amadurecer estejam condenadas, visto terem ficado de uma cor estranha. Recolhi-as para casa e acrescentei os caules à pilha de composto, que agora ficou completa, à excepção da palha velha que ainda está no jardim. (...)
D 6.4.40: (...) Semeei curgetes e abóboras em vasos. NB. que as curgetes estão nos vasos que ficam mais perto da estrada. (...)
21.6.47: (...) As lesmas comeram uma das duas curgetes - é possível que recupere. (...)

George ORWELL, Diários (trad. Daniela Carvalhal Garcia), Publicações Dom Quixote, 2014.


33 cm.


Palmo e meio.


Meio côvado (bitola em pedra embutida no arco que sucede o alfiz da porta principal do castelo de Moura, utilizada durante o tempo em que a feira, criada em 1302 por D. Pedro I, teve aí lugar).



Trio de curgetes.


                                        Flores masculina e femininas de curgete.


 Talhão de curgetes.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O dono da horta toda

A terminar o ano, uma história passada no último Verão, em quatro andamentos.
1.Julho no seu apogeu e eis que um pato branco, sem dono nem mando, chega à horta. Marcando as devidas distâncias em relação ao ponto de onde o observamos, estuga o passo direito ao tanque, patina na baldosa e amara de quilha estilhaçando o espelho de água. Passa uma boa meia hora em circum-navegações exploratórias, como se nada fosse com ele, como se não tivesse de dar explicações. Depois, deixa a água e vem aninhar-se ao sol, alisando as rémiges sem despegar os olhos dos nossos, no fundo dos quais deve ter descoberto um qualquer sinal de fraqueza, do género: «a um pato tolera-se tudo».
2.Com o início de Agosto, o anatídeo convence-se de que somos São Francisco de Assis, e começa a aproximação. Que se torna atrevida no dia em que o surpreendemos a flanar ao longo de dois talhões em pousio, tasquinhando este e aqueloutro escalracho. Quando a criatura decide finalmente espojar-se e espenujar-se aos nossos pés, está segura de que vem aí o salvo-conduto para alargar a ronda a toda a horta.  
3.Em meados de Agosto, faz de tudo para retribuir e chamar a nossa atenção. É a altura em que nos habituamos ao som da restolhada vinda dos tomateiros enquanto cumprimos a rotina de desdobrar a mangueira e levar a água ao nosso talhão. Claro que só podia ser o Ranger em missão de patrulhamento, como sempre atascado num dos regos que a água já cobria, como sempre quase irreconhecível sob a lama que só lhe deixava ver os olhos.   
4.Julgávamos terem sido exploradas todas as possibilidades de mostrar serviço até àquela tarde de final de Agosto em que somos confrontados com a mais extraordinária das proezas. Deambulávamos ambos no caminho de serventia, ao longo da álea de aromáticas, quando derivou para mostrar o desvão, entre duas alfazemas, onde costumava pernoitar. Depois, sem que nada o fizesse prever, empinou a barriga até ao alecrim mais próximo, seleccionou duas ou três hastes mais carregadas, e não se fez rogado. Num abrir e fechar de olhos, longos rosários de caracóis acabaram sugados e rilhados - um aspirador não faria melhor -, por aquele bico longo e espalmado a lembrar dois palitos la reine justapostos. Um verdadeiro bodo ao nosso pato, que motivou o seguinte comentário: «Não te conhecia tão galfarro, ó pato. Ainda por cima, sorte a tua, os caracóis até já vêm temperados e servidos em espetos de alecrim». Ora, ora, tivesse esta cena acontecido no tempo em que os animais falavam, e outro pato cantaria, decerto com uma réplica deste jaez: «Deixa-te de histórias de patos, ó homem, e vai mas é buscar uma grade de minis para acompanhar o petisco, que se faz tarde». Palavra que foi isto que perscrutámos lá bem no seu imo, sem despegarmos os olhos dos dele.  

Para corroborar a veracidade desta história, leia-se o seguinte no Manual de Agricultura Biológica, edição da Agrobio de 1988, página 413: «Como medidas de carácter mais preventivo (contra caracóis e lesmas), indicamos as seguintes: (...) 2) colocar galinhas e patos (...) no terreno antes ou no final da cultura.» Já agora, as fotografias, para que não restem dúvidas.






segunda-feira, 28 de julho de 2014

A horta contada pelas crianças

-É segredo ou podemos saber o que mais gostaram da horta?
-Gostámos de tudo!
-A sério? 
-Sim. Gostámos do tanque e de ver as carpas, os barbos e os pimpões. A princípio pensávamos que era a brincar, mas depois vimos que eram peixinhos a sério. Gostámos também de ouvir as rãs a coaxarem numa poça ao pé do tanque.
-Apesar de estarem escondidas nos juncos. 
-Sim. E gostámos de saber que há plantas que têm nomes de pessoas.
-Se calhar são as pessoas que têm nome de plantas. Até com o primeiro nome e o apelido, tal como a...
-...Lúcia-lima.
-Planta de que se faz um chá maravilhoso. Sabiam?
-E gostámos muito do poema que fala sobre ela.
-Vamos relê-lo?
-Sim.
o tem boca nem pulmões.
Que não tenha não admira.
porque é pelas folhas,
que a lúcia-lima respira.


Não tem boca nem pulmões,

nem veias, a lúcia-lima!
Mas tem seiva, quanto basta,
a subir pelo caule acima.


E se porventura a ferirem,

acaba por cair no chão.
A não ser que alguém lhe dê,
logo uma transfusão.»

-Gostámos também de conhecer a hortelã do Sporting. 
-Do Sporting ou do Benfica?
-Do Sporting. Porque as suas folhas são verdes e brancas, como as camisolas do Sporting. 
-Os meninos que são do Benfica é que queriam ver uma hortelã encarnada, mas parece que não existe... Já agora, gostaram de a retirar do vaso e plantar no jardim da horta?
-Sim, foi muito giro. Cavámos todos um bocadinho e fizemos um buraco onde ela coubesse. No fim, regámos com o regador.
-E depois?
-Depois gostámos de conhecer a planta mais cheirosa da horta.
-Que se chama?
-Tomilho bela-luz. 
-E lembram-se do outro nome por que era conhecida antigamente?
-Sal purinho.
-E porquê sal purinho? Está-se mesmo a ver...
-Porque é um pouco salgada.
-Por isso, quando não tinham sal, as pessoas usavam esta planta para temperar os alimentos.  
-E porque faz melhor à saúde.
-Bem observado. E agora, esta planta, o que sabem sobre ela?
-Chama-se salva e serve para fazer pasta de dentes. Até experimentámos trincar uma folha para sentir o sabor refrescante.
-Já acabaram?
-Não. Ainda falta falar dos talhões dos senhores e das senhoras que vêm cavar a horta. 
-E o que produzem eles e elas?
-Muita coisa. Alfaces, tomates, ervilhas, favas, cenouras, feijão e outras coisas. Assim não precisam de ir ao supermercado gastar dinheiro.
-Para além disso, são legumes biológicos. O que quer dizer biológicos?
-Que não levam pózinhos que fazem mal à barriga das pessoas.
-Das pessoas, dos animais e da natureza em geral. Muito bem. Agora temos aqui estes ramos de plantas aromáticas para vocês levarem para a vossa sala. Mas antes de partirem, vamos ler um poema que fala de uma destas plantas. Vamos ver se vocês descobrem qual é. Diz assim:

«Fecha os olhos bem fechados,
e diz-me a que é que cheira.
Cheira a rosa, cheira a nardo,
ou a flor de laranjeira?



Nem a rosa, nem a nardo,

nem a cravos, nem a cravinas
me cheira este poema.
O que me chega às narinas
é o cheiro a...»

Então? Digam alto! Alfa...
-...zema.
-Certo!

Peixinhos da horta


A hortelã do Sporting

Os senhores que cuidam da horta

A salva para fazer pasta de dentes


Feijão rasteiro e feijão "trapezista"


Cheira a alfazema


A horta comunitária foi visitada no passado mês de Maio por crianças e educadoras do Centro Infantil Nossa Senhora do Carmo. Este "trabalho de campo", como lhe chamaram, constituiu uma das actividades pedagógicas do projecto Semeando ciência...bem no interior do Alentejo, desenvolvido durante o ano lectivo 2013/2014 nesta instituição mourense de ensino pré-escolar. Projecto integrado e multidisciplinar que se centrou na criação de uma horta escolar (com rega gota-a-gota accionada por painel solar) e que proporcionou «inter-relações e pontes de aprendizagem entre recursos naturais (actividades em torno da motivação, preparação e cultivo de legumes na horta), ciência (experiências e pesquisas realizadas pelas crianças no âmbito da vida vegetal e animal da horta e da energia do sol) e tecnologia (actividades em torno do painel solar e do aproveitamento do sol como recurso natural)». Candidatado ao Prémio Fundação Ilídio Pinho - Ciência na Escola, este projecto viria a ser distinguido com uma menção honrosa. Ainda que com o contributo de muitas entidades, este sucesso deve-se acima de tudo a uma equipa de directores e educadores com visão de futuro, que conseguiu envolver e mobilizar as crianças, as suas famílias, parceiros institucionais, como a ADCMoura, e comunidade em geral nesta relevante acção de promoção da cultura científica na escola, a partir da rentabilização dos recursos naturais locais, que vai certamente continuar a dar frutos nos próximos anos ou não se chamasse Semeando ciência. Muitos parabéns!  

Os poemas são de Jorge Sousa Braga, Herbário, Assírio & Alvim, 2ª edição, 2002.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Hortas, compostagem e Goethe

Cascas de tubérculos e frutos, restos de hortaliça e legumes, borras de café e saquetas de chá, cascas de ovos e folhas secas de arbustos contam-se entre os resíduos orgânicos depositados no nosso ponto de recolha doméstico, à espera de serem compostados. Representam diariamente qualquer coisa como meio quilo e metade do lixo indiferenciado produzido por uma família de três elementos. Ao fim de uma semana a seleccionar e armazenar, são cerca de quatro quilos de resíduos domésticos que desviamos, com vantagens diversas, dos sobrelotados aterros sanitários da região para os compostores instalados na horta, onde são transformados e de seguida incorporados, sob a forma de adubo gourmet, no ciclo produtivo.
Graças à horta e à compostagem, o que antes era lixo ganha agora estatuto de matéria-prima. Chama-se a isto saber utilizar os recursos com eficiência e sensatez, partindo do princípio de que tudo foi feito, a montante, para reduzir o seu desperdício. E nós garantimos que sim.
Vale a pena determo-nos nesta combinação frutuosa horta-compostagem: evita o uso de fertilizantes químicos e outros insumos não-naturais, contribui para a redução do custo de gestão dos resíduos domésticos e gera impactos positivos no meio ambiente, na nossa saúde e na nossa carteira.
Além disso, com estes simples gestos, estamos a retomar o curso duma longa história de que nos afastámos, enquanto comunidade, nas últimas décadas, a qual remonta às origens da agricultura neste território e se sedimenta num valioso património de práticas sustentáveis, de que o aproveitamento de estrumes de origem animal e de desperdícios das cozinhas e colheitas sempre fez parte.
Em conclusão, produção local de alimentos e tratamento local de resíduos foram sempre funções inerentes às hortas tradicionais, as de Moura, em particular, e as do mundo mediterrânico, em geral, mas que agora, em tempos de transição, podem e devem ser consideradas com renovado propósito.



E por falar em (a) propósito, reza assim o trecho seguinte, escrito em Nápoles no dia 28 de Maio de 1787: 

«As redondezas de Nápoles são uma horta pegada, e dá gosto ver a quantidade de legumes que todos os dias são trazidos para a cidade, e como as pessoas se ocupam a levar de volta para os campos os restos, deitados fora pelos cozinheiros, para acelerar o ciclo da vegetação. Com um tal consumo de legumes, os talos e as folhas de couve-flor, brócolos, alcachofras, couves, alface, alho, constituem uma grande parte do lixo napolitano; e eles procuram fazer o que podem por isso. O burro traz no lombo dois grandes cestos flexíveis que não se limitam a encher, completam-nos ainda com um monte em cada um, feito de um jeito muito especial. Não há horta que floresça sem um burro destes. Um criado, um rapaz, por vezes o próprio patrão, vêm todos os dias, às vezes mais que uma vez, à cidade, que é para eles uma mina a qualquer hora que cheguem. É fácil de imaginar como estes homens andam atrás do estrume de cavalos e mulas. Não saem das ruas quando cai a noite, e os ricos, que depois da meia-noite saem da ópera, não pensam provavelmente que antes do nascer do dia um homem diligente terá recolhido os vestígios dos seus cavalos. Asseguram-me que algumas destas pessoas se juntam, compram um burro e arrendam a um proprietário um pedaço de terra batida, e, com o seu trabalho e o clima favorável, em que o ciclo da vegetação nunca se interrompe, em pouco tempo conseguem alargar significativamente o seu negócio.»  (Johann Wolfgang von Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1788), tradução, prefácio e notas de João Barrento, Relógio d'Água Editores, 2001, pp.406-407.

Como escreveu Orlando Ribeiro, a obra epistolar/diarística Viagem a Itália, do romântico Johann Goethe (sim, esse mesmo, o autor de Fausto e Werther), registando as suas deambulações, entre 1786 e 1788, através de uma Itália então dividida em reinos, «é o primeiro encontro da cultura germânica, na época da sua eclosão, com o ambiente e a tradição do Mediterrâneo». Encontro marcado por um permanente deslumbramento, quer diante do mundo clássico da história e da arte, quer perante o mundo novo da natureza e do património rural mediterrânicos, com uma atenção particular dada às paisagens e aos aspectos pitorescos das práticas agrícolas. Apesar dos anos passados, continua a ser uma obra relevante da vasta bibliografia acerca do Mediterrâneo, sobretudo para o conhecimento da idiossincrasia transalpina. 


domingo, 4 de maio de 2014

Rosas e espinhos

Maio, mês das rosas. Também na nossa horta. Lembrar que em Novembro de 2011 eram apenas simples estacas ou roseiras em potência. E que, passados dois anos e meio sobre a clonagem, botões prenhes e outros desabrochados vieram coroar-nos. Quanto aos espinhos, já lá estando no momento da estaquia, continuam presentes no ramalhete. O que seria (d)a rosa sem espinhos, (d)a beleza sem senão, (d)o amor sem desenganos, d(o) saber sem a ilusão?




Passam este ano 450 anos sobre a morte de William Shakespeare e passa hoje uma semana sobre a morte de Vasco Graça Moura, a quem se deve a tradução integral e insuperável, para a língua portuguesa, dos Sonnets do autor inglês. E porque as rosas têm espinhos, elegemos o soneto trinta e cinco, de uma sequência de cento e cinquenta e quatro.  

35.

No more be grieved at that which thou hast done;
Roses have thorns, and silver fountains mud;
Clouds and eclipses stain both moon and sun,
And loathsome canker lives in sweetest bud.
All men make faults, and even I, in this,
Authorizing thy trespass with compare,
Myself corrupting, salving thy amiss,
Excusing these sins more than these sins are:
For to thy sensual fault I bring in sense;
Thy adverse party in thy advocate,
And 'gainst myself a lawful plea commence:
Such civil war is in my love and hate
       That I an accessory needs must be
       To that sweet thief which sourly robs from me.

35.

Do que fizeste a dor não te possua:
rosas têm picos, fontes de lama prata,
nuvens e eclipses turvam sol e lua,
no mais doce botão vil verme acama.
Os homens todos erram e eu segui-os
abonando-te a falta com perdão;
corrompo-me remindo os meus desvios,
mais erro é desculpá-los do que o são.
Se à falta dos sentidos dou sentido,
a parte a ti adversa é o defensor
e contra mim o pleito é dirigido,
eis em guerra civil meu ódio e amor
        e tal que a ser um cúmplice me impele
        de quem me é ladrão doce e cruel.

Vasco Graça Moura, Os Sonetos de Shakespeare, Bertrand Editora, Maio de 2002 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Chá no Sahara

Ontem desafiámos a chuva e o vento para ir à horta colher uns pés de hortelã marroquina (Mentha spicata "Nana"). Uma missão relacionada com os excessos gastronómicos da época festiva que atravessamos. Com a seiva ainda fresca, destacámos, uma a uma, as folhas dos caules e deixámo-las em infusão durante cinco minutos, contados a partir do primeiro contacto com a água a cerca de 80 graus Celsius. Resultou na beberagem que esperávamos e necessitávamos. Um travo fresco e doce a mentol com notas subtis de pimenta. Sobretudo purgante e relaxante, e os efeitos a fazerem-se sentir de imediato. Além disso, duas canecas cheias para brindarmos de novo ao novo ano, esperando que todos possam ver realizado o seu desejo de tomar um chá no Sahara, apesar das tempestades de areia que espreitam no horizonte.




"Tea in the Sahara" é o título do livro primeiro de The sheltering sky, obra de culto escrita por Paul Bowles em 1949 e adaptada ao cinema por Bertolucci em 1990, num filme com o mesmo nome, onde se conta a história triste, trágica mesmo, que se segue, de quem, justamente, deseja muito tomar um chá no deserto. De resto a história inspirou ainda Sting a escrever e musicar "Tea in the Sahara" (The Police, Synchronicity, 1983). Seguimos a tradução portuguesa de José Agostinho Baptista (O céu que nos protege, edição Assírio e Alvim, 1989); ver aqui o texto original em inglês (chapter 5, pp. 11-12)   
«Havia três raparigas das montanhas que se chamavam Outka, Mimouna e Aicha. (...) Foram à procura da sorte em M'Zab. A maior parte das raparigas da montanha vai procurá-la a Algiers, Tunis (...), onde possam ganhar dinheiro, mas estas raparigas queriam uma coisa acima de todas: beber chá no Sahara. (...) No M'Zab os homens são todos feios. As raparigas dançam nos cafés de Ghardaia, mas estão sempre tristes; continuam à espera de tomar chá no Sahara. (...) Por isso muitos meses passaram e elas continuavam no M'Zab, tristes, muito tristes, porque os homens eram todos feios. São mesmo feios, como porcos. E não pagam o dinheiro suficiente às raparigas e por isso elas não podem ir-se embora tomar chá no Sahara. (...) Um dia aparece um Targui, alto e formoso, montado num belo mehara; fala com Outka, Mimouna e Aicha, fala-lhes no deserto, lá onde ele vive, no seu bled e elas ouvem, de olhos arregalados. Depois ele diz: "Dancem para mim", e elas dançam. A seguir faz amor com as três, dá uma moeda de prata a Outka, outra a Mimouna e outra a Aicha. Ao romper do dia, monta o seu mehara e vai-se embora para o Sul. Depois elas ficam muito tristes e o M'Zab parece-lhes mais feio do que nunca, e só pensam no alto Targui que vive no Sahara. (...) 
Passam muitos meses, e elas não têm ainda dinheiro suficiente para partir para o Sahara. Tinham guardado as moedas de prata, porque estavam as três apaixonadas pelo Targui. E continuam sempre tristes. Um dia dizem: "Vamos acabar assim - sempre tristes, sem tomarmos chá no Sahara - por isso temos de partir imediatamente, de qualquer maneira, mesmo sem dinheiro." Juntam todo o dinheiro que têm, incluindo as três moedas de prata, compram um bule, uma bandeja, três copos e bilhetes de autocarro para El Goléa. Aí resta-lhes pouco dinheiro e entregam-no todo a um dachlamar que conduz a sua caravana. Então, uma noite, quando o sol se está a pôr, chegam às grandes dunas de areia e pensam: "Ah, estamos enfim no Sahara; vamos fazer chá." (...) Outka, Mimouna e Aicha afastam-se em silêncio da caravana com a sua bandeja, o bule e os copos. Procuram a duna mais alta de modo a poderem ver todo o Sahara. Depois farão chá. Caminham durante muito tempo. Outka diz "vejo uma duna alta", dirigem-se para lá e sobem-na até ao cimo. Então Mimouna diz: "Vejo uma duna além. É muito mais alta e podemos ver todo o caminho para In Salah!" Dirigem-se para essa duna, que é muito mais alta. Mas quando chegam ao cimo, Aicha diz: "Olhem! Ali está a duna mais alta de todas. De lá podemos ver Tamanrasset. É onde vive o Targui." O sol nasce e elas continuam a andar. Ao meio-dia faz muito calor. Mas chegam à duna e sobem, sobem. Quando atingem o cimo estão muito cansadas e dizem: "Bem, vamos descansar um pouquinho e depois fazemos chá." Mas antes pousam a bandeja, o bule e os copos. Depois deitam-se e adormecem. E então muitos dias mais tarde outra caravana vinha a passar por ali e um homem reparou em qualquer coisa no cimo da duna mais alta. Quando foram ver, encontraram Outka, Mimouna e Aicha; ainda lá estavam, deitadas tal como tinham adormecido. E os três copos estavam cheios de areia. Foi assim que tomaram o seu chá no Sahara.»

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O dia dos prodígios

Prodígio é poder contar com este tempo aprazível para pôr a horta em dia. Do último domingo fica o olhar fortuito que se segue sobre as tarefas realizadas e em que se misturam momentos de pura contemplação. Outros prodígios, portanto.


Ao lado do existente, instalámos cinco novos compostores cedidos pelo projecto Re-Planta aos utilizadores da horta que assistiram, em Moura, no mês passado, à oficina sobre compostagem. Foram cumpridos, de um modo geral, os procedimentos usuais de instalação de compostores: arrumados a um canto da horta, junto à casa das ferramentas, ao abrigo dos ventos dominantes, em lugar acessível a todos os hortelãos, debaixo de árvores de folha caduca e colocados directamente sobre o solo para facilitar a entrada de organismos decompositores e a passagem dos líquidos que se vão gerando durante a biodegradação da matéria orgânica.


Ponto de situação do processo de decomposição no compostor instalado há mais tempo: desde que, em Março, montaram arraiais neste "reactor biológico", os microorganismos de serviço têm dado conta das camadas de resíduos verdes e castanhos, criando, com as suas excrescências, um produto que se aproxima cada vez mais do composto maduro, isto é, o alimento ideal para nutrir o solo e as plantas da nossa horta. Já não falta muito para dispormos deste "ouro negro". Segurando uma forquilha na vertical, aproveitámos para abrir canais de ventilação e com isso introduzir mais oxigénio na pilha. 



Enquanto prossegue a compostagem, uma pilha de estrume bem curtido, misto de palha e esquírolas de excremento de cavalo, vai satisfazendo as necessidades de fertilizar e cobrir o solo de alguns talhões nesta altura do ano.  



Preparação de cinco talhões de forma muito pouco intrusiva: nada de enxadas e de cavas fundas para manter intacta a ordem das camadas de terra e poupar a fauna auxiliadora que habita no seu interior. Apenas uma monda manual para controlar a grama e uma leve passagem com ancinho no final para apagar os vestígios de pisoteio.   
Aos poucos, temos conseguido reaver o que, no início, não passavam de solos compactados e erodidos, convertendo-os em oásis de vida. 



Agora que os tons das folhas da figueira assumem declinações que vão do amarelo pálido ao castanho escuro e uma de cada vez caem ao chão, sobretudo nos talhões que se encontram sob o raio da acção da copa da árvore, está criado o pasto perfeito para as nossas minhocas e outras micro-criaturas se recrearem a seu bel-prazer. A sua acção é fundamental para transformar a matéria orgânica disponível em húmus e nutrientes assimiláveis pelas plantas. Significa, além disso, um contributo assinalável para a melhoria da estrutura do solo, para o aumento da drenagem dos mais pesados e da retenção de água dos mais leves, para a limitação da germinação de ervas espontâneas e ainda para a diminuição do impacto da radiação solar directa sobre o solo, evitando-se assim a erosão. 


Ainda a propósito de minhocas, temo-las amiúde na horta e bem cevadas, o que é um excelente medidor do trabalho em curso de regeneração do solo. Dá para perceber que, por aqui, minhocas e outros seres rastejantes têm estatuto de protecção. 



Como por exemplo esta taranta atarantada, que mete tracção às oito patas mal focamos a objectiva. Instinto de sobrevivência posto à prova, quando leva o dorso bem albardado de criação.



Mais acima, no cimo dos postes da vedação, há sempre uma garbosa louva-a-deus, circunvagando o olhar ou palhetando as asas em desalinho, que procura candidatos à medida do seu apetite. 



Aproveitámos a lua em quarto crescente para lançar à terra estas sementes de ervilha, produzidas em modo biológico pela De Bolster, seguindo o princípio dos antigos que diz que é nesta fase da lua que deve ser feita a sementeira das plantas aéreas (altura em que a seiva circula com maior fluidez no caule, nos ramos e nas folhas). Já no caso das plantas subterrâneas (cenouras, nabos, cebolas, alhos, batatas, etc), o cultivo deve ter lugar durante a lua minguante, quando a seiva desce às raízes.



Assim vai o fugaz (?) Verão de São Martinho: os pimenteiros continuam a produzir, e muito, como se estivéssemos em pleno Verão. "Mejor que pimienta", como escreveu Colombo.


Falar de pimenta é lembrar as malaguetas que também prosperam a olhos vistos na horta. Colhemos as bagas mais maduras, logo as mais picantes, para utilizar indiferentemente no tempero de molhos, em marinadas e pratos condimentados. E reservámos algumas como ingrediente principal de um chutney caseiro onde não faltarão o alho, azeite, louro, sal e uns pés de alecrim.


A propósito de alecrim, também colhemos algumas pontas tenras para fazer infusões, conhecidas que são as propriedades tonificantes e estimulantes da planta. Comido moderadamente em cru é um excelente fortificante para o cérebro e a memória. Não por acaso os estudantes da Grécia Antiga e os legionários romanos tinham por hábito trazer ramos de alecrim atrás das orelhas.  



O tempo ameno que se faz sentir ainda vai pedindo uma bebida refrescante. Entre as melhores que se podem fazer a partir das plantas da horta está a infusão gelada de hortelã-pimenta, cujo modo de preparação segue estes passos simples: 1) maceração das folhas num pilão; 2) infusão das folhas maceradas num bule; 3) coar o líquido; 4) deixar arrefecer; 5) colocar no frigorífico e servir bem frio. Como sugestão: adicionar uma colher de sopa com açucar mascavado. 



Salvas há muitas. Esta é a salva-ananás da nossa horta e apresenta-se por esta altura bem frondosa, com as suas flores lilazes e... comestíveis! Imagine-se uma salada com esta cor e a saber a ananás. Melhor do que isso, só provando.  


E como não há três plantas odorosas sem quatro, chega a vez de falar da lúcia-lima. O que lhe damos em trato e nutrimento, que inclui conversa diária de homem para planta, retribui-nos ela, a lúcia-lima, em infusões alimonadas que consolam a alma e  o corpo. 


O outono representa o auge das romãzeiras. Inteiriços ou arreganhados, ninguém pode ficar indiferente aos seus belos frutos. 



E se não bastasse, os lodãos-bastardos, carregados de ginjinhas maduras, só servem para renovar o apelo pela recolecção. 



Com estas dicas, não é difícil adivinhar em que consistiu o lanche frugal a meio da tarde: rosários doces de ginginhas-del-rei e gengivas vermelhas e abertas de romã a sorrirem para nós. 


Falta falar da última das vitualhas. Como a natureza na horta não se cansa de ser generosa, acabámos a jornada a ripar uns quantos ramos da nossa oliveira híbrida. Um maná de azeitonas carrasquenhas e cordovis que ganharão estatuto de conduto depois de curtidas em salmoura tradicional. 



Depois seguimos o exemplo das ovelhas do vizinho Francisco, gozando a calma do final de dia, pois na horta nem tudo são couves e alfaces.



Há também (e sempre) lugar para a contemplação e para um naco de prosa poética.

A oliveira de Atena na Acrópole 
"Quanto à oliveira, nada mais têm a dizer, senão que é o testemunho da luta da deusa pela posse da região. Contam ainda que esta oliveira foi queimada, quando os Medos incendiaram a cidade dos Atenienses, mas, no mesmo dia em que ardeu, produziu um rebento de dois côvados."

Pausânias, Descrição da Grécia, I, 26, 6 (trad. Maria Helena da Rocha Pereira)