A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O dia dos prodígios

Prodígio é poder contar com este tempo aprazível para pôr a horta em dia. Do último domingo fica o olhar fortuito que se segue sobre as tarefas realizadas e em que se misturam momentos de pura contemplação. Outros prodígios, portanto.


Ao lado do existente, instalámos cinco novos compostores cedidos pelo projecto Re-Planta aos utilizadores da horta que assistiram, em Moura, no mês passado, à oficina sobre compostagem. Foram cumpridos, de um modo geral, os procedimentos usuais de instalação de compostores: arrumados a um canto da horta, junto à casa das ferramentas, ao abrigo dos ventos dominantes, em lugar acessível a todos os hortelãos, debaixo de árvores de folha caduca e colocados directamente sobre o solo para facilitar a entrada de organismos decompositores e a passagem dos líquidos que se vão gerando durante a biodegradação da matéria orgânica.


Ponto de situação do processo de decomposição no compostor instalado há mais tempo: desde que, em Março, montaram arraiais neste "reactor biológico", os microorganismos de serviço têm dado conta das camadas de resíduos verdes e castanhos, criando, com as suas excrescências, um produto que se aproxima cada vez mais do composto maduro, isto é, o alimento ideal para nutrir o solo e as plantas da nossa horta. Já não falta muito para dispormos deste "ouro negro". Segurando uma forquilha na vertical, aproveitámos para abrir canais de ventilação e com isso introduzir mais oxigénio na pilha. 



Enquanto prossegue a compostagem, uma pilha de estrume bem curtido, misto de palha e esquírolas de excremento de cavalo, vai satisfazendo as necessidades de fertilizar e cobrir o solo de alguns talhões nesta altura do ano.  



Preparação de cinco talhões de forma muito pouco intrusiva: nada de enxadas e de cavas fundas para manter intacta a ordem das camadas de terra e poupar a fauna auxiliadora que habita no seu interior. Apenas uma monda manual para controlar a grama e uma leve passagem com ancinho no final para apagar os vestígios de pisoteio.   
Aos poucos, temos conseguido reaver o que, no início, não passavam de solos compactados e erodidos, convertendo-os em oásis de vida. 



Agora que os tons das folhas da figueira assumem declinações que vão do amarelo pálido ao castanho escuro e uma de cada vez caem ao chão, sobretudo nos talhões que se encontram sob o raio da acção da copa da árvore, está criado o pasto perfeito para as nossas minhocas e outras micro-criaturas se recrearem a seu bel-prazer. A sua acção é fundamental para transformar a matéria orgânica disponível em húmus e nutrientes assimiláveis pelas plantas. Significa, além disso, um contributo assinalável para a melhoria da estrutura do solo, para o aumento da drenagem dos mais pesados e da retenção de água dos mais leves, para a limitação da germinação de ervas espontâneas e ainda para a diminuição do impacto da radiação solar directa sobre o solo, evitando-se assim a erosão. 


Ainda a propósito de minhocas, temo-las amiúde na horta e bem cevadas, o que é um excelente medidor do trabalho em curso de regeneração do solo. Dá para perceber que, por aqui, minhocas e outros seres rastejantes têm estatuto de protecção. 



Como por exemplo esta taranta atarantada, que mete tracção às oito patas mal focamos a objectiva. Instinto de sobrevivência posto à prova, quando leva o dorso bem albardado de criação.



Mais acima, no cimo dos postes da vedação, há sempre uma garbosa louva-a-deus, circunvagando o olhar ou palhetando as asas em desalinho, que procura candidatos à medida do seu apetite. 



Aproveitámos a lua em quarto crescente para lançar à terra estas sementes de ervilha, produzidas em modo biológico pela De Bolster, seguindo o princípio dos antigos que diz que é nesta fase da lua que deve ser feita a sementeira das plantas aéreas (altura em que a seiva circula com maior fluidez no caule, nos ramos e nas folhas). Já no caso das plantas subterrâneas (cenouras, nabos, cebolas, alhos, batatas, etc), o cultivo deve ter lugar durante a lua minguante, quando a seiva desce às raízes.



Assim vai o fugaz (?) Verão de São Martinho: os pimenteiros continuam a produzir, e muito, como se estivéssemos em pleno Verão. "Mejor que pimienta", como escreveu Colombo.


Falar de pimenta é lembrar as malaguetas que também prosperam a olhos vistos na horta. Colhemos as bagas mais maduras, logo as mais picantes, para utilizar indiferentemente no tempero de molhos, em marinadas e pratos condimentados. E reservámos algumas como ingrediente principal de um chutney caseiro onde não faltarão o alho, azeite, louro, sal e uns pés de alecrim.


A propósito de alecrim, também colhemos algumas pontas tenras para fazer infusões, conhecidas que são as propriedades tonificantes e estimulantes da planta. Comido moderadamente em cru é um excelente fortificante para o cérebro e a memória. Não por acaso os estudantes da Grécia Antiga e os legionários romanos tinham por hábito trazer ramos de alecrim atrás das orelhas.  



O tempo ameno que se faz sentir ainda vai pedindo uma bebida refrescante. Entre as melhores que se podem fazer a partir das plantas da horta está a infusão gelada de hortelã-pimenta, cujo modo de preparação segue estes passos simples: 1) maceração das folhas num pilão; 2) infusão das folhas maceradas num bule; 3) coar o líquido; 4) deixar arrefecer; 5) colocar no frigorífico e servir bem frio. Como sugestão: adicionar uma colher de sopa com açucar mascavado. 



Salvas há muitas. Esta é a salva-ananás da nossa horta e apresenta-se por esta altura bem frondosa, com as suas flores lilazes e... comestíveis! Imagine-se uma salada com esta cor e a saber a ananás. Melhor do que isso, só provando.  


E como não há três plantas odorosas sem quatro, chega a vez de falar da lúcia-lima. O que lhe damos em trato e nutrimento, que inclui conversa diária de homem para planta, retribui-nos ela, a lúcia-lima, em infusões alimonadas que consolam a alma e  o corpo. 


O outono representa o auge das romãzeiras. Inteiriços ou arreganhados, ninguém pode ficar indiferente aos seus belos frutos. 



E se não bastasse, os lodãos-bastardos, carregados de ginjinhas maduras, só servem para renovar o apelo pela recolecção. 



Com estas dicas, não é difícil adivinhar em que consistiu o lanche frugal a meio da tarde: rosários doces de ginginhas-del-rei e gengivas vermelhas e abertas de romã a sorrirem para nós. 


Falta falar da última das vitualhas. Como a natureza na horta não se cansa de ser generosa, acabámos a jornada a ripar uns quantos ramos da nossa oliveira híbrida. Um maná de azeitonas carrasquenhas e cordovis que ganharão estatuto de conduto depois de curtidas em salmoura tradicional. 



Depois seguimos o exemplo das ovelhas do vizinho Francisco, gozando a calma do final de dia, pois na horta nem tudo são couves e alfaces.



Há também (e sempre) lugar para a contemplação e para um naco de prosa poética.

A oliveira de Atena na Acrópole 
"Quanto à oliveira, nada mais têm a dizer, senão que é o testemunho da luta da deusa pela posse da região. Contam ainda que esta oliveira foi queimada, quando os Medos incendiaram a cidade dos Atenienses, mas, no mesmo dia em que ardeu, produziu um rebento de dois côvados."

Pausânias, Descrição da Grécia, I, 26, 6 (trad. Maria Helena da Rocha Pereira)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Dois anos

Fez esta última semana dois anos (no dia 10) que começámos o projecto da Horta Comunitária de Moura e dois anos também (no dia 11) que iniciámos este blogue.
Sobre o que era e aquilo em que se tornou a horta, algumas imagens e palavras que revisitam etapas/momentos importantes deste processo de cidadania participativa e colaborativa.


Outubro 2011 - Há dois anos, a área da actual horta comunitária destinava-se apenas ao pastoreio de vegetação espontânea por um efectivo ovino que não ultrapassava a dezena de animais. Ou seja, não apresentava qualquer prática cultural digna desse nome. Votada praticamente ao abandono, a horta era uma sombra dos seus tempos áureos, descritos com saudade pelas gentes do bairro do Sete e Meio. Depois de algumas reuniões com a Câmara Municipal de Moura, a entidade proprietária, em que se definiram os termos de cedência de parte do terreno da horta para realização da componente prática da acção de formação Empreender à Medida - Produção Agrícola: Horta Comunitária, promovida pela ADCMoura, iniciámos finalmente os trabalhos no terreno no dia 10 desse mês, que marca também o começo deste projecto.


Outubro 2011 - Entre Outubro de 2011 e Fevereiro de 2012, a Horta Comunitária foi palco da referida acção de formação, destinada a mobilizar e aumentar as competências de 12 formandos em situação de desemprego, através do contacto com o mundo do trabalho associado à produção agrícola. Dos doze formandos iniciais, só um permanece actualmente na Horta. Apesar de tudo, foi com a colaboração de todos eles que iniciámos a operação de resgate da horta. As vagas resultantes das desistências foram entretanto preenchidas por pessoas que demonstraram ter interesse efectivo em cultivar os talhões disponíveis. Neste momento, a lista de espera para ingresso na horta conta com cerca de duas dezenas de candidatos. 


Outubro 2011 - A situação de partida configurava um solo compactado, coberto com alguma vegetação espontânea e pródigo em pedras de média e grande dimensão, em particular na parcela superior, sem qualquer tipo de protecção contra a erosão. Foi necessário proceder a uma desprega manual seguida de mobilização mecânica do solo, realizada com o recurso a uma grade de discos. Apesar de não ser a opção preconizada para este tipo de intervenção, a ausência de alternativas no curto espaço de tempo que antecedeu o início dos trabalhos acabou por determinar a sua utilização. Foi solicitada, no entanto, uma mobilização muito ligeira na tentativa de disturbar o menos possível o perfil do solo.


Outubro 2011 - A recolha de amostras de solo para análise laboratorial revelou-se fundamental para avaliar a composição e fertilidade do terreno agrícola da horta e com isso identificar eventuais medidas correctivas. 


Outubro 2011 - Devolver o branco da cal há muito desaparecido das paredes do muro e do tanque da horta foi uma das primeiras tarefas a que deitámos mão. Em Julho de 2013, voltámos a devolver a luz da cal à nossa horta. A nova campanha será em Julho de 2015.




Outubro 2011 - Recuperando a agrimensura dos antigos egípcios, definimos os limites dos doze talhões que ainda hoje se mantêm: oito talhões na parcela inferior e quatro na superior, com as medidas de 7x5m ou 6x6m.



Novembro 2011 - Foi introduzida uma vedação de rede ovilheira para impedir a circulação de ovelhas e galináceos da vizinhança na área reservada à horta comunitária.

                                         

Novembro 2011 - Início dos trabalhos agrícolas com a mobilização e preparação do solo dos talhões, sementeira e/ou plantação. Primeira campanha Outono-Inverno, marcada por seca severa, pois só choveu em final de Março de 2012. A implantação dos talhões individuais supôs um planeamento prévio, que permitiu ter em consideração, para além do gosto pessoal dos utilizadores, alguns aspectos fundamentais para a produção de hortícolas em modo de produção biológico: - plano anual de estabelecimento de culturas nos talhões, proporcionando uma ocupação permanente das áreas individuais; - rotação e consociação de culturas, tendo em consideração potenciais efeitos alelopáticos, aumento da diversidade de plantas na horta em cada momento do ciclo anual, exploração diferencial do solo e de nutrientes nele presentes, disponibilização/decomposição de matéria orgânica, sensibilidade a pragas e doenças, etc,; - estabelecimento de zonas de compensação ecológica com plantas que atraem organismos benéficos de zonas próximas para a área da horta, tendo-se utilizado sobretudo bordaduras de plantas aromáticas.  


Novembro 2011 - Favas e ervilhas foram e continuam a ser as eleitas das culturas de Inverno na horta. Para além da gastronomia, estas leguminosas são importantes para a fertilidade e actividade biológica do solo sob a forma de adubo verde: fixam o azoto atmosférico no solo e, mais tarde, podem ser incorporadas na terra como fertilizante (sideração). 


Novembro 2011 - A criação da área de compostagem obedeceu a alguns critérios de localização: acesso a todos os utilizadores; presença de ensombramento e garantia de não escoamento do chorume para linhas de água. Aliás, a instalação do compostor contemplou também a abertura de uma vala, forrada com plástico preto, para recolha precisamente desse líquido resultante da decomposição da matéria orgânica. O chorume, enquanto subproduto da compostagem, é excelente como bio-pesticida e também como bio-estimulante das plantas. Dada a escassez de insumos internos na horta que permitissem alimentar uma pilha de composto com o volume desejado, optou-se pelo recurso a subprodutos de outras actividades produtivas locais, como por exemplo folhas e ramos de oliveira provenientes da separação da azeitona, de protecção integrada, à entrada do lagar da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos.


Novembro 2011 - Rumámos a Castro Verde para conhecer de perto o projecto das hortas comunitárias promovido pelo Município local, numa visita que visou o intercâmbio de ideias e recolha de boas práticas. 


Novembro 2011 - Colocámos estacas de roseira em redor da horta e nas bordaduras dos talhões, pois, para além do embelezamento paisagístico que proporcionam e de apresentarem pétalas comestíveis e atraírem insectos auxiliares, desempenham ainda o papel de bioindicadores de doenças como o oídio ou farinha.



Dezembro 2011 - Realizámos a primeira visita técnica à horta numa manhã fria e seca de Inverno, guiada pelos próprios formandos/utilizadores e dirigida a convidados amigos e conhecidos que se mostraram curiosos no início e embevecidos no final com tudo o que viram e ouviram.


Dezembro 2011 - Não terminámos o ano sem antes trazer a Moura um importante tema que marca a actualidade e marcará certamente o nosso futuro comum: a recolha e conservação de sementes tradicionais. Em formato de ateliê e com muitas demonstrações práticas, o José Mariano, da Colher para Semear, não deixou ninguém indiferente. Como resultado desta sensibilização, a Horta Comunitária conta criar brevemente um banco de sementes para conservação do património vegetal de variedades tradicionais ou regionais.  



Janeiro 2012 - No início de 2013, no âmbito das actividades da Semana da Comunidade Educativa, abrimos as portas da horta a alunos, famílias e professores das Escolas Básicas do 1º ciclo da cidade de Moura, para uma jornada de educação ambiental que foi muito profícua e que cativou miúdos e graúdos. Uma manhã diferente passada fora dos bancos da escola, que, esperamos, possa vir a dar frutos no futuro.




Fevereiro 2012 - Celebrámos a conclusão do curso de formação iniciado em Outubro de 2011 com um lauto almoço confeccionado pelos próprios formandos e servido em plena horta. Tratou-se de uma espécie de adiafa, termo utilizado aqui no Alentejo para designar o ritual de celebração alimentar e de confraternização associado à conclusão dos trabalhos do campo, após o ciclo agrícola. Para a ocasião festiva, escolhemos receitas à base de produtos das hortas e convidámos alguns amigos a juntarem-se à nossa mesa, que ficaram extasiados com a diversidade e qualidade da oferta gastronómica.  



Março 2012 - A horta dispõe de um tanque antigo abastecido por água de nascente, que corre todo o ano. Costumamos dizer, com propriedade, que regamos as nossas hortícolas com Água do Castello, originalmente captada no castelo de Moura. Começámos por regar com um par de regadores e muita força braçal. Ao cabo de cinco meses, mantendo a simplicidade dos meios, desenvolvemos um sistema de rega por gravidade que leva a água a cada um dos talhões através de uma mangueira comum e correspondentes derivações com torneira individual, o que, sem ser o modelo perfeito, tem servido as necessidades das nossas plantas.  



Abril 2012 - Enveredámos pelo "faça você mesmo" conhecendo os riscos da decisão e não nos demos mal. Apesar de alguns acidentes de percurso, a desmanchar e a refazer passo-a-passo, conseguimos pôr de pé, sem que sobrassem peças, a alegre casinha das ferramentas. Até hoje continua a ser a morada segura da alfaiaria agrícola da horta. Quando é preciso também serve de vestiário. Não, os menos magros também conseguem caber dentro.  



Maio 2012 - A horta saiu por momentos do Sete e Meio e foi dar-se a conhecer na Olivomoura, através do stand da ADCMoura, primeira de muitas presenças em certames do género. 


Julho 2012 - Há quanto tempo o tanque não era limpo? Quase trinta centímetros de lama e pedras, sendo que uma ou outra entupiam o cano de saída da água, deixa perceber que há muito, seguramente. Três hortelãos meteram então mãos à obra, dragando o fundo à procura de pedras e baldeando água lamacenta até as baldosas ficarem a descoberto, luzidias. Pronto a receber vinte mil litros de água bem oxigenada e cheia de reflexos azuis, o tanque voltaria a ser o abrigo dos nossos dezoito peixinhos da horta, entre barbos, carpas, bogas e pimpões.


Agosto 2012 -  Por duas vezes a horta acolheu um grupo de futuros hortelãos participantes no Ateliê de Jardinagem organizado pela Câmara Municipal de Moura. Miúdos que trocam as férias grandes por dias dedicados à jardinagem só podem ser especiais. Fizeram perguntas, formularam desejos, plantaram e regaram, aprenderam, divertindo-se, e no final ganharam um troféu em forma de tomate coração-de-boi. 



Fevereiro 2013 - Depois do Regulamento de Utilização e do Plano de Exploração da Horta Comunitária de Moura, compilámos um conjunto de informações e conselhos práticos úteis sobre horticultura em modo de produção biológico no Guia de utilização da Horta Comunitária de Moura. Disponível para consulta neste mesmo blogue.


Abril 2013 -  Embora atrasados, celebrámos a chegada da Primavera, com música, poesia petisco no alforge e muita alegria. Porque "a poesia é para comer", já dizia a Natália Correia. A repetir na próxima Primavera, com toda a certeza.


Junho 2013 - No início deste Verão, investimos em operações de limpeza, desprega e controlo do escalracho nas áreas comuns da horta.


Julho 2013 - O talude com plantas aromáticas e medicinais, que separa as duas parcelas da horta, tem-se revelado uma das áreas mais importantes do espaço, permitindo, com uma intervenção equilibrada, agir não só ao nível da conservação do solo e combate à erosão, como contribuir para a fixação de insectos auxiliares e introduzir diversidade, embelezamento e refrigério. Em Julho deste ano, a colecção de plantas do talude ultrapassou as três dezenas de espécies diferentes. 


Outubro 2013 - A horta, no dia de ontem, ao fim da tarde. Um domingo... 

Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz - eles, eles...
Domingo...
Hoje é a quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo...
Nunca domingo...
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Sobretudo para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo...
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outrem nas hortas e ao domingo...

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), Poesia, 9/8/1934



sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Partilhar sementes

Reunião Tupperware? Showroom de varinhas mágicas? Nem uma coisa nem outra. É o José Mariano, da Colher para Semear, a tentar extrair sementes de uma beringela, rodeado de uma plateia de passantes que aguarda, suspensa, pelo desenlace da operação. A tentar, porque a beringela não apresenta ainda aquele tom amarelo dourado, sinal de que o fruto está bem maduro e as sementes no ponto para guardar para sementeiras futuras. Não sendo ideais, as condições existentes não o impedem de continuar com a demonstração e de obter as tão desejadas cápsulas que preservam a vida através do espaço e do tempo, muitas vezes em condições hostis, com todos os requisitos de sobrevivência no seu interior. 
Em plena Feira de Setembro, em Moura, o José Mariano principia por descascar e cortar a beringela em bocados desiguais. As sementes estão à vista na polpa, mas não propriamente à mão de semear. Retirá-las uma a uma com as pontas dos dedos está longe de ser tarefa fácil. Por isso, nada melhor do que um truque para agilizar o processo e poupar na paciência. A solução tem tanto de magia como de simplicidade desarmante. Magia é a palavra certa, até porque é aqui que entra a varinha mágica. Os pedaços de beringela são deitados num liquidificador, com um pouco de água não tratada, dentro do qual trabalhará a varinha em baixa rotação para desfazer aos poucos a polpa sem danificar as sementes. Estas acabam por soltar-se e afundar-se na calda. Ao contrário, os restos de polpa ficam a flutuar à superfície, o que facilita a sua remoção. Em seguida, o líquido com as sementes é passado pelo coador, que retém apenas o que interessa. Deixadas a secar num prato até que não reste qualquer vestígio de humidade, as sementes estarão finalmente prontas para serem guardadas hermeticamente em frascos de vidro e etiquetadas com o nome da variedade e o ano da colheita. 
Duas regras de ouro a reter para qualquer secagem que envolva frutos, como a beringela: apanhar sempre os frutos mais sãos situados ao nível inferior da planta e secar sempre as sementes à sombra. Tratando-se de uma variedade tradicional ou regional cuja pureza se pretende preservar, torna-se necessário proceder diferentemente se estamos em presença de uma planta cujo sistema de reprodução é por autopolinização e autofecundação ou se se trata de uma espécie de polinização cruzada, promovida pelos principais vectores: o vento e os insectos. No primeiro caso, a variabilidade é limitada, existindo baixo risco de cruzamento. Nesta categoria encontramos espécies como a alface, beldroega, ervilha, feijão, grão-de-bico ou tomate. No segundo caso, ao invés, a variabilidade é grande, existindo alto risco de cruzamento. Para espécies com estas características, é necessário estabelecer uma distância de isolamento entre variedades diferentes da mesma espécie, que pode variar entre 50 a 100 metros no caso da beringela e entre 3000 a 8000 metros no caso da beterraba, para se garantir uma elevada pureza varietal. Ainda para contrariar o desenvolvimento de híbridos, pode-se sempre recorrer a exemplos de polinização controlada pelo próprio homem: tapando todas as plantas da mesma variedade com rede mosquiteira, e desde que se introduzam no interior insectos polinizadores, ou ligando manualmente flores macho e flores fêmea e fechando de seguida a flor fêmea já fecundada com fita adesiva de fácil remoção para não condicionar ou impedir mesmo o crescimento do pedúnculo.   
Em suma, e esta foi a mensagem principal deixada pelo José Mariano, compete a cada um, sobretudo quem faz agricultura e é utilizador de hortas, recorrendo a procedimentos simples, contribuir para a conservação das sementes de variedades tradicionais e da biodiversidade no seu todo, sementes essas que não estão patenteadas e que são portanto património de todos.   
Falando do nosso contributo e respondendo a um desafio lançado pelo José Mariano, tornámo-nos em fiel guardião de um exemplar de uma variedade tradicional de tomate que o próprio nos confiou: o tomate-de-viagem. O compromisso firmado passa por extrair e guardar as respectivas sementes, lançá-las à terra no tempo próprio e partilhar parte da colheita com outros animados do mesmo espírito, de modo a que também esses procedam à conservação e multiplicação das sementes, de modo a que todos juntos consigamos garantir a continuidade da variedade. 
Espaço de partilha por excelência, que melhor sítio do que a horta comunitária para lançar e consolidar esta ideia que diz respeito ao nosso futuro comum. 

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás quando 
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

Eugénio de Andrade, Matéria solar, 1980)


O vórtice das sementes de beringela

Exemplar de tomate-de-viagem

Um bago para consumir em cada paragem do périplo 

Sementes do mesmo tomate, prontas para mais uma etapa da longa viagem da sobrevivência 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A não perder

A ADCMoura - Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Moura organiza na manhã do dia 14 de Setembro, sábado, no âmbito da XXXIII Feira do Artesanato de Moura / IV Mostra Transfronteiriça de Aromas e Sabores, a Jornada Transfronteiriça sobre Secagem de Plantas Aromáticas e Medicinais.
O objectivo da jornada é o de apresentar e debater diferentes soluções técnicas para secagem de plantas aromáticas e medicinais (PAM), considerando a qualidade do produto obtido, os custos, a adequação e os impactos. Esta iniciativa conta com a participação de produtores de PAM e de fabricantes de equipamentos de secagem, de Portugal, Espanha e Itália, para falarem das suas experiências e apresentarem soluções neste domínio (ver mais informações aqui). 
Ainda no âmbito do certame de Moura, a ADCMoura realiza no dia 13 de Setembro duas oficinas com os temas "Redes colaborativas de produção local" (entre as 10 e as 13 horas, conduzida pela Casa do Sal; ver mais informações aqui) e "Selo de Comércio Solidário e Sustentável" (entre as 15 e as 18 horas, a cargo da Ecogerminar; ver mais informações aqui). 

Finalmente, no domingo, dia 15, a ADCMoura promove uma oficina sobre "Recolha e conservação de sementes", orientada por José Mariano, da Colher para Semear (ver mais informações aqui).
Iniciativas que os interessados/as em PAM, hortas, agricultura biológica e desenvolvimento local não vão, seguramente, querer perder.          



Jesús Cia, director da Josenea, vem a Moura falar de secagem de PAM 




José Mariano, da Colher para Semear, estará de novo em Moura, depois da sua passagem em Dezembro de 2011 (ver neste blogue aqui)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A luz da cal

Uma arroba de pedra de cal e uma hora para se transformar em cal aérea. Três semanas a estagiar, depois de extinta. Cento e oitenta metros quadrados de muro e tanque para caiar. Uma mão cheia de voluntários. Alguns com vasta experiência do ofício e todos com vontade de devolver àquelas paredes o branco obstinado da arquitectura do sul. Seis da manhã, pela fresca, em meados de Julho de um ano ímpar. Três camadas de leite de cal sobrepostas em outros tantos dias. Quanta magia, do branco translúcido ao branco opaco. Assim se renova a luz da cal na nossa horta. 

"Procurando uma síntese definidora do Alentejo, tal como o vejo, direi que ele é a luz da cal e a extensão, a seara cor de sol, sob a intensidade do azul; e que nessa extensão acontece, de longe em longe, a quieta serenidade dos sobreiros e das azinheiras. Pureza, miragem do absoluto, voto de vida livre e de transcendência. Um povo pobre e altivo. Terra de muito poucos e, ao mesmo tempo, terra de ninguém. Ou terra de todos para todos, terra do impossível. Do sonho feito vida."  

Excerto inicial da obra, A luz da cal (2006), de Urbano Tavares Rodrigues, escritor que cresceu em Moura e que faleceu sexta-feira em Lisboa com 89 anos, e para quem a cal é grumosa, reverberante, cegante, sarracena.