A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.

domingo, 4 de maio de 2014

Rosas e espinhos

Maio, mês das rosas. Também na nossa horta. Lembrar que em Novembro de 2011 eram apenas simples estacas ou roseiras em potência. E que, passados dois anos e meio sobre a clonagem, botões prenhes e outros desabrochados vieram coroar-nos. Quanto aos espinhos, já lá estando no momento da estaquia, continuam presentes no ramalhete. O que seria (d)a rosa sem espinhos, (d)a beleza sem senão, (d)o amor sem desenganos, d(o) saber sem a ilusão?




Passam este ano 450 anos sobre a morte de William Shakespeare e passa hoje uma semana sobre a morte de Vasco Graça Moura, a quem se deve a tradução integral e insuperável, para a língua portuguesa, dos Sonnets do autor inglês. E porque as rosas têm espinhos, elegemos o soneto trinta e cinco, de uma sequência de cento e cinquenta e quatro.  

35.

No more be grieved at that which thou hast done;
Roses have thorns, and silver fountains mud;
Clouds and eclipses stain both moon and sun,
And loathsome canker lives in sweetest bud.
All men make faults, and even I, in this,
Authorizing thy trespass with compare,
Myself corrupting, salving thy amiss,
Excusing these sins more than these sins are:
For to thy sensual fault I bring in sense;
Thy adverse party in thy advocate,
And 'gainst myself a lawful plea commence:
Such civil war is in my love and hate
       That I an accessory needs must be
       To that sweet thief which sourly robs from me.

35.

Do que fizeste a dor não te possua:
rosas têm picos, fontes de lama prata,
nuvens e eclipses turvam sol e lua,
no mais doce botão vil verme acama.
Os homens todos erram e eu segui-os
abonando-te a falta com perdão;
corrompo-me remindo os meus desvios,
mais erro é desculpá-los do que o são.
Se à falta dos sentidos dou sentido,
a parte a ti adversa é o defensor
e contra mim o pleito é dirigido,
eis em guerra civil meu ódio e amor
        e tal que a ser um cúmplice me impele
        de quem me é ladrão doce e cruel.

Vasco Graça Moura, Os Sonetos de Shakespeare, Bertrand Editora, Maio de 2002 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Chá no Sahara

Ontem desafiámos a chuva e o vento para ir à horta colher uns pés de hortelã marroquina (Mentha spicata "Nana"). Uma missão relacionada com os excessos gastronómicos da época festiva que atravessamos. Com a seiva ainda fresca, destacámos, uma a uma, as folhas dos caules e deixámo-las em infusão durante cinco minutos, contados a partir do primeiro contacto com a água a cerca de 80 graus Celsius. Resultou na beberagem que esperávamos e necessitávamos. Um travo fresco e doce a mentol com notas subtis de pimenta. Sobretudo purgante e relaxante, e os efeitos a fazerem-se sentir de imediato. Além disso, duas canecas cheias para brindarmos de novo ao novo ano, esperando que todos possam ver realizado o seu desejo de tomar um chá no Sahara, apesar das tempestades de areia que espreitam no horizonte.




"Tea in the Sahara" é o título do livro primeiro de The sheltering sky, obra de culto escrita por Paul Bowles em 1949 e adaptada ao cinema por Bertolucci em 1990, num filme com o mesmo nome, onde se conta a história triste, trágica mesmo, que se segue, de quem, justamente, deseja muito tomar um chá no deserto. De resto a história inspirou ainda Sting a escrever e musicar "Tea in the Sahara" (The Police, Synchronicity, 1983). Seguimos a tradução portuguesa de José Agostinho Baptista (O céu que nos protege, edição Assírio e Alvim, 1989); ver aqui o texto original em inglês (chapter 5, pp. 11-12)   
«Havia três raparigas das montanhas que se chamavam Outka, Mimouna e Aicha. (...) Foram à procura da sorte em M'Zab. A maior parte das raparigas da montanha vai procurá-la a Algiers, Tunis (...), onde possam ganhar dinheiro, mas estas raparigas queriam uma coisa acima de todas: beber chá no Sahara. (...) No M'Zab os homens são todos feios. As raparigas dançam nos cafés de Ghardaia, mas estão sempre tristes; continuam à espera de tomar chá no Sahara. (...) Por isso muitos meses passaram e elas continuavam no M'Zab, tristes, muito tristes, porque os homens eram todos feios. São mesmo feios, como porcos. E não pagam o dinheiro suficiente às raparigas e por isso elas não podem ir-se embora tomar chá no Sahara. (...) Um dia aparece um Targui, alto e formoso, montado num belo mehara; fala com Outka, Mimouna e Aicha, fala-lhes no deserto, lá onde ele vive, no seu bled e elas ouvem, de olhos arregalados. Depois ele diz: "Dancem para mim", e elas dançam. A seguir faz amor com as três, dá uma moeda de prata a Outka, outra a Mimouna e outra a Aicha. Ao romper do dia, monta o seu mehara e vai-se embora para o Sul. Depois elas ficam muito tristes e o M'Zab parece-lhes mais feio do que nunca, e só pensam no alto Targui que vive no Sahara. (...) 
Passam muitos meses, e elas não têm ainda dinheiro suficiente para partir para o Sahara. Tinham guardado as moedas de prata, porque estavam as três apaixonadas pelo Targui. E continuam sempre tristes. Um dia dizem: "Vamos acabar assim - sempre tristes, sem tomarmos chá no Sahara - por isso temos de partir imediatamente, de qualquer maneira, mesmo sem dinheiro." Juntam todo o dinheiro que têm, incluindo as três moedas de prata, compram um bule, uma bandeja, três copos e bilhetes de autocarro para El Goléa. Aí resta-lhes pouco dinheiro e entregam-no todo a um dachlamar que conduz a sua caravana. Então, uma noite, quando o sol se está a pôr, chegam às grandes dunas de areia e pensam: "Ah, estamos enfim no Sahara; vamos fazer chá." (...) Outka, Mimouna e Aicha afastam-se em silêncio da caravana com a sua bandeja, o bule e os copos. Procuram a duna mais alta de modo a poderem ver todo o Sahara. Depois farão chá. Caminham durante muito tempo. Outka diz "vejo uma duna alta", dirigem-se para lá e sobem-na até ao cimo. Então Mimouna diz: "Vejo uma duna além. É muito mais alta e podemos ver todo o caminho para In Salah!" Dirigem-se para essa duna, que é muito mais alta. Mas quando chegam ao cimo, Aicha diz: "Olhem! Ali está a duna mais alta de todas. De lá podemos ver Tamanrasset. É onde vive o Targui." O sol nasce e elas continuam a andar. Ao meio-dia faz muito calor. Mas chegam à duna e sobem, sobem. Quando atingem o cimo estão muito cansadas e dizem: "Bem, vamos descansar um pouquinho e depois fazemos chá." Mas antes pousam a bandeja, o bule e os copos. Depois deitam-se e adormecem. E então muitos dias mais tarde outra caravana vinha a passar por ali e um homem reparou em qualquer coisa no cimo da duna mais alta. Quando foram ver, encontraram Outka, Mimouna e Aicha; ainda lá estavam, deitadas tal como tinham adormecido. E os três copos estavam cheios de areia. Foi assim que tomaram o seu chá no Sahara.»

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O dia dos prodígios

Prodígio é poder contar com este tempo aprazível para pôr a horta em dia. Do último domingo fica o olhar fortuito que se segue sobre as tarefas realizadas e em que se misturam momentos de pura contemplação. Outros prodígios, portanto.


Ao lado do existente, instalámos cinco novos compostores cedidos pelo projecto Re-Planta aos utilizadores da horta que assistiram, em Moura, no mês passado, à oficina sobre compostagem. Foram cumpridos, de um modo geral, os procedimentos usuais de instalação de compostores: arrumados a um canto da horta, junto à casa das ferramentas, ao abrigo dos ventos dominantes, em lugar acessível a todos os hortelãos, debaixo de árvores de folha caduca e colocados directamente sobre o solo para facilitar a entrada de organismos decompositores e a passagem dos líquidos que se vão gerando durante a biodegradação da matéria orgânica.


Ponto de situação do processo de decomposição no compostor instalado há mais tempo: desde que, em Março, montaram arraiais neste "reactor biológico", os microorganismos de serviço têm dado conta das camadas de resíduos verdes e castanhos, criando, com as suas excrescências, um produto que se aproxima cada vez mais do composto maduro, isto é, o alimento ideal para nutrir o solo e as plantas da nossa horta. Já não falta muito para dispormos deste "ouro negro". Segurando uma forquilha na vertical, aproveitámos para abrir canais de ventilação e com isso introduzir mais oxigénio na pilha. 



Enquanto prossegue a compostagem, uma pilha de estrume bem curtido, misto de palha e esquírolas de excremento de cavalo, vai satisfazendo as necessidades de fertilizar e cobrir o solo de alguns talhões nesta altura do ano.  



Preparação de cinco talhões de forma muito pouco intrusiva: nada de enxadas e de cavas fundas para manter intacta a ordem das camadas de terra e poupar a fauna auxiliadora que habita no seu interior. Apenas uma monda manual para controlar a grama e uma leve passagem com ancinho no final para apagar os vestígios de pisoteio.   
Aos poucos, temos conseguido reaver o que, no início, não passavam de solos compactados e erodidos, convertendo-os em oásis de vida. 



Agora que os tons das folhas da figueira assumem declinações que vão do amarelo pálido ao castanho escuro e uma de cada vez caem ao chão, sobretudo nos talhões que se encontram sob o raio da acção da copa da árvore, está criado o pasto perfeito para as nossas minhocas e outras micro-criaturas se recrearem a seu bel-prazer. A sua acção é fundamental para transformar a matéria orgânica disponível em húmus e nutrientes assimiláveis pelas plantas. Significa, além disso, um contributo assinalável para a melhoria da estrutura do solo, para o aumento da drenagem dos mais pesados e da retenção de água dos mais leves, para a limitação da germinação de ervas espontâneas e ainda para a diminuição do impacto da radiação solar directa sobre o solo, evitando-se assim a erosão. 


Ainda a propósito de minhocas, temo-las amiúde na horta e bem cevadas, o que é um excelente medidor do trabalho em curso de regeneração do solo. Dá para perceber que, por aqui, minhocas e outros seres rastejantes têm estatuto de protecção. 



Como por exemplo esta taranta atarantada, que mete tracção às oito patas mal focamos a objectiva. Instinto de sobrevivência posto à prova, quando leva o dorso bem albardado de criação.



Mais acima, no cimo dos postes da vedação, há sempre uma garbosa louva-a-deus, circunvagando o olhar ou palhetando as asas em desalinho, que procura candidatos à medida do seu apetite. 



Aproveitámos a lua em quarto crescente para lançar à terra estas sementes de ervilha, produzidas em modo biológico pela De Bolster, seguindo o princípio dos antigos que diz que é nesta fase da lua que deve ser feita a sementeira das plantas aéreas (altura em que a seiva circula com maior fluidez no caule, nos ramos e nas folhas). Já no caso das plantas subterrâneas (cenouras, nabos, cebolas, alhos, batatas, etc), o cultivo deve ter lugar durante a lua minguante, quando a seiva desce às raízes.



Assim vai o fugaz (?) Verão de São Martinho: os pimenteiros continuam a produzir, e muito, como se estivéssemos em pleno Verão. "Mejor que pimienta", como escreveu Colombo.


Falar de pimenta é lembrar as malaguetas que também prosperam a olhos vistos na horta. Colhemos as bagas mais maduras, logo as mais picantes, para utilizar indiferentemente no tempero de molhos, em marinadas e pratos condimentados. E reservámos algumas como ingrediente principal de um chutney caseiro onde não faltarão o alho, azeite, louro, sal e uns pés de alecrim.


A propósito de alecrim, também colhemos algumas pontas tenras para fazer infusões, conhecidas que são as propriedades tonificantes e estimulantes da planta. Comido moderadamente em cru é um excelente fortificante para o cérebro e a memória. Não por acaso os estudantes da Grécia Antiga e os legionários romanos tinham por hábito trazer ramos de alecrim atrás das orelhas.  



O tempo ameno que se faz sentir ainda vai pedindo uma bebida refrescante. Entre as melhores que se podem fazer a partir das plantas da horta está a infusão gelada de hortelã-pimenta, cujo modo de preparação segue estes passos simples: 1) maceração das folhas num pilão; 2) infusão das folhas maceradas num bule; 3) coar o líquido; 4) deixar arrefecer; 5) colocar no frigorífico e servir bem frio. Como sugestão: adicionar uma colher de sopa com açucar mascavado. 



Salvas há muitas. Esta é a salva-ananás da nossa horta e apresenta-se por esta altura bem frondosa, com as suas flores lilazes e... comestíveis! Imagine-se uma salada com esta cor e a saber a ananás. Melhor do que isso, só provando.  


E como não há três plantas odorosas sem quatro, chega a vez de falar da lúcia-lima. O que lhe damos em trato e nutrimento, que inclui conversa diária de homem para planta, retribui-nos ela, a lúcia-lima, em infusões alimonadas que consolam a alma e  o corpo. 


O outono representa o auge das romãzeiras. Inteiriços ou arreganhados, ninguém pode ficar indiferente aos seus belos frutos. 



E se não bastasse, os lodãos-bastardos, carregados de ginjinhas maduras, só servem para renovar o apelo pela recolecção. 



Com estas dicas, não é difícil adivinhar em que consistiu o lanche frugal a meio da tarde: rosários doces de ginginhas-del-rei e gengivas vermelhas e abertas de romã a sorrirem para nós. 


Falta falar da última das vitualhas. Como a natureza na horta não se cansa de ser generosa, acabámos a jornada a ripar uns quantos ramos da nossa oliveira híbrida. Um maná de azeitonas carrasquenhas e cordovis que ganharão estatuto de conduto depois de curtidas em salmoura tradicional. 



Depois seguimos o exemplo das ovelhas do vizinho Francisco, gozando a calma do final de dia, pois na horta nem tudo são couves e alfaces.



Há também (e sempre) lugar para a contemplação e para um naco de prosa poética.

A oliveira de Atena na Acrópole 
"Quanto à oliveira, nada mais têm a dizer, senão que é o testemunho da luta da deusa pela posse da região. Contam ainda que esta oliveira foi queimada, quando os Medos incendiaram a cidade dos Atenienses, mas, no mesmo dia em que ardeu, produziu um rebento de dois côvados."

Pausânias, Descrição da Grécia, I, 26, 6 (trad. Maria Helena da Rocha Pereira)

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Dois anos

Fez esta última semana dois anos (no dia 10) que começámos o projecto da Horta Comunitária de Moura e dois anos também (no dia 11) que iniciámos este blogue.
Sobre o que era e aquilo em que se tornou a horta, algumas imagens e palavras que revisitam etapas/momentos importantes deste processo de cidadania participativa e colaborativa.


Outubro 2011 - Há dois anos, a área da actual horta comunitária destinava-se apenas ao pastoreio de vegetação espontânea por um efectivo ovino que não ultrapassava a dezena de animais. Ou seja, não apresentava qualquer prática cultural digna desse nome. Votada praticamente ao abandono, a horta era uma sombra dos seus tempos áureos, descritos com saudade pelas gentes do bairro do Sete e Meio. Depois de algumas reuniões com a Câmara Municipal de Moura, a entidade proprietária, em que se definiram os termos de cedência de parte do terreno da horta para realização da componente prática da acção de formação Empreender à Medida - Produção Agrícola: Horta Comunitária, promovida pela ADCMoura, iniciámos finalmente os trabalhos no terreno no dia 10 desse mês, que marca também o começo deste projecto.


Outubro 2011 - Entre Outubro de 2011 e Fevereiro de 2012, a Horta Comunitária foi palco da referida acção de formação, destinada a mobilizar e aumentar as competências de 12 formandos em situação de desemprego, através do contacto com o mundo do trabalho associado à produção agrícola. Dos doze formandos iniciais, só um permanece actualmente na Horta. Apesar de tudo, foi com a colaboração de todos eles que iniciámos a operação de resgate da horta. As vagas resultantes das desistências foram entretanto preenchidas por pessoas que demonstraram ter interesse efectivo em cultivar os talhões disponíveis. Neste momento, a lista de espera para ingresso na horta conta com cerca de duas dezenas de candidatos. 


Outubro 2011 - A situação de partida configurava um solo compactado, coberto com alguma vegetação espontânea e pródigo em pedras de média e grande dimensão, em particular na parcela superior, sem qualquer tipo de protecção contra a erosão. Foi necessário proceder a uma desprega manual seguida de mobilização mecânica do solo, realizada com o recurso a uma grade de discos. Apesar de não ser a opção preconizada para este tipo de intervenção, a ausência de alternativas no curto espaço de tempo que antecedeu o início dos trabalhos acabou por determinar a sua utilização. Foi solicitada, no entanto, uma mobilização muito ligeira na tentativa de disturbar o menos possível o perfil do solo.


Outubro 2011 - A recolha de amostras de solo para análise laboratorial revelou-se fundamental para avaliar a composição e fertilidade do terreno agrícola da horta e com isso identificar eventuais medidas correctivas. 


Outubro 2011 - Devolver o branco da cal há muito desaparecido das paredes do muro e do tanque da horta foi uma das primeiras tarefas a que deitámos mão. Em Julho de 2013, voltámos a devolver a luz da cal à nossa horta. A nova campanha será em Julho de 2015.




Outubro 2011 - Recuperando a agrimensura dos antigos egípcios, definimos os limites dos doze talhões que ainda hoje se mantêm: oito talhões na parcela inferior e quatro na superior, com as medidas de 7x5m ou 6x6m.



Novembro 2011 - Foi introduzida uma vedação de rede ovilheira para impedir a circulação de ovelhas e galináceos da vizinhança na área reservada à horta comunitária.

                                         

Novembro 2011 - Início dos trabalhos agrícolas com a mobilização e preparação do solo dos talhões, sementeira e/ou plantação. Primeira campanha Outono-Inverno, marcada por seca severa, pois só choveu em final de Março de 2012. A implantação dos talhões individuais supôs um planeamento prévio, que permitiu ter em consideração, para além do gosto pessoal dos utilizadores, alguns aspectos fundamentais para a produção de hortícolas em modo de produção biológico: - plano anual de estabelecimento de culturas nos talhões, proporcionando uma ocupação permanente das áreas individuais; - rotação e consociação de culturas, tendo em consideração potenciais efeitos alelopáticos, aumento da diversidade de plantas na horta em cada momento do ciclo anual, exploração diferencial do solo e de nutrientes nele presentes, disponibilização/decomposição de matéria orgânica, sensibilidade a pragas e doenças, etc,; - estabelecimento de zonas de compensação ecológica com plantas que atraem organismos benéficos de zonas próximas para a área da horta, tendo-se utilizado sobretudo bordaduras de plantas aromáticas.  


Novembro 2011 - Favas e ervilhas foram e continuam a ser as eleitas das culturas de Inverno na horta. Para além da gastronomia, estas leguminosas são importantes para a fertilidade e actividade biológica do solo sob a forma de adubo verde: fixam o azoto atmosférico no solo e, mais tarde, podem ser incorporadas na terra como fertilizante (sideração). 


Novembro 2011 - A criação da área de compostagem obedeceu a alguns critérios de localização: acesso a todos os utilizadores; presença de ensombramento e garantia de não escoamento do chorume para linhas de água. Aliás, a instalação do compostor contemplou também a abertura de uma vala, forrada com plástico preto, para recolha precisamente desse líquido resultante da decomposição da matéria orgânica. O chorume, enquanto subproduto da compostagem, é excelente como bio-pesticida e também como bio-estimulante das plantas. Dada a escassez de insumos internos na horta que permitissem alimentar uma pilha de composto com o volume desejado, optou-se pelo recurso a subprodutos de outras actividades produtivas locais, como por exemplo folhas e ramos de oliveira provenientes da separação da azeitona, de protecção integrada, à entrada do lagar da Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos.


Novembro 2011 - Rumámos a Castro Verde para conhecer de perto o projecto das hortas comunitárias promovido pelo Município local, numa visita que visou o intercâmbio de ideias e recolha de boas práticas. 


Novembro 2011 - Colocámos estacas de roseira em redor da horta e nas bordaduras dos talhões, pois, para além do embelezamento paisagístico que proporcionam e de apresentarem pétalas comestíveis e atraírem insectos auxiliares, desempenham ainda o papel de bioindicadores de doenças como o oídio ou farinha.



Dezembro 2011 - Realizámos a primeira visita técnica à horta numa manhã fria e seca de Inverno, guiada pelos próprios formandos/utilizadores e dirigida a convidados amigos e conhecidos que se mostraram curiosos no início e embevecidos no final com tudo o que viram e ouviram.


Dezembro 2011 - Não terminámos o ano sem antes trazer a Moura um importante tema que marca a actualidade e marcará certamente o nosso futuro comum: a recolha e conservação de sementes tradicionais. Em formato de ateliê e com muitas demonstrações práticas, o José Mariano, da Colher para Semear, não deixou ninguém indiferente. Como resultado desta sensibilização, a Horta Comunitária conta criar brevemente um banco de sementes para conservação do património vegetal de variedades tradicionais ou regionais.  



Janeiro 2012 - No início de 2013, no âmbito das actividades da Semana da Comunidade Educativa, abrimos as portas da horta a alunos, famílias e professores das Escolas Básicas do 1º ciclo da cidade de Moura, para uma jornada de educação ambiental que foi muito profícua e que cativou miúdos e graúdos. Uma manhã diferente passada fora dos bancos da escola, que, esperamos, possa vir a dar frutos no futuro.




Fevereiro 2012 - Celebrámos a conclusão do curso de formação iniciado em Outubro de 2011 com um lauto almoço confeccionado pelos próprios formandos e servido em plena horta. Tratou-se de uma espécie de adiafa, termo utilizado aqui no Alentejo para designar o ritual de celebração alimentar e de confraternização associado à conclusão dos trabalhos do campo, após o ciclo agrícola. Para a ocasião festiva, escolhemos receitas à base de produtos das hortas e convidámos alguns amigos a juntarem-se à nossa mesa, que ficaram extasiados com a diversidade e qualidade da oferta gastronómica.  



Março 2012 - A horta dispõe de um tanque antigo abastecido por água de nascente, que corre todo o ano. Costumamos dizer, com propriedade, que regamos as nossas hortícolas com Água do Castello, originalmente captada no castelo de Moura. Começámos por regar com um par de regadores e muita força braçal. Ao cabo de cinco meses, mantendo a simplicidade dos meios, desenvolvemos um sistema de rega por gravidade que leva a água a cada um dos talhões através de uma mangueira comum e correspondentes derivações com torneira individual, o que, sem ser o modelo perfeito, tem servido as necessidades das nossas plantas.  



Abril 2012 - Enveredámos pelo "faça você mesmo" conhecendo os riscos da decisão e não nos demos mal. Apesar de alguns acidentes de percurso, a desmanchar e a refazer passo-a-passo, conseguimos pôr de pé, sem que sobrassem peças, a alegre casinha das ferramentas. Até hoje continua a ser a morada segura da alfaiaria agrícola da horta. Quando é preciso também serve de vestiário. Não, os menos magros também conseguem caber dentro.  



Maio 2012 - A horta saiu por momentos do Sete e Meio e foi dar-se a conhecer na Olivomoura, através do stand da ADCMoura, primeira de muitas presenças em certames do género. 


Julho 2012 - Há quanto tempo o tanque não era limpo? Quase trinta centímetros de lama e pedras, sendo que uma ou outra entupiam o cano de saída da água, deixa perceber que há muito, seguramente. Três hortelãos meteram então mãos à obra, dragando o fundo à procura de pedras e baldeando água lamacenta até as baldosas ficarem a descoberto, luzidias. Pronto a receber vinte mil litros de água bem oxigenada e cheia de reflexos azuis, o tanque voltaria a ser o abrigo dos nossos dezoito peixinhos da horta, entre barbos, carpas, bogas e pimpões.


Agosto 2012 -  Por duas vezes a horta acolheu um grupo de futuros hortelãos participantes no Ateliê de Jardinagem organizado pela Câmara Municipal de Moura. Miúdos que trocam as férias grandes por dias dedicados à jardinagem só podem ser especiais. Fizeram perguntas, formularam desejos, plantaram e regaram, aprenderam, divertindo-se, e no final ganharam um troféu em forma de tomate coração-de-boi. 



Fevereiro 2013 - Depois do Regulamento de Utilização e do Plano de Exploração da Horta Comunitária de Moura, compilámos um conjunto de informações e conselhos práticos úteis sobre horticultura em modo de produção biológico no Guia de utilização da Horta Comunitária de Moura. Disponível para consulta neste mesmo blogue.


Abril 2013 -  Embora atrasados, celebrámos a chegada da Primavera, com música, poesia petisco no alforge e muita alegria. Porque "a poesia é para comer", já dizia a Natália Correia. A repetir na próxima Primavera, com toda a certeza.


Junho 2013 - No início deste Verão, investimos em operações de limpeza, desprega e controlo do escalracho nas áreas comuns da horta.


Julho 2013 - O talude com plantas aromáticas e medicinais, que separa as duas parcelas da horta, tem-se revelado uma das áreas mais importantes do espaço, permitindo, com uma intervenção equilibrada, agir não só ao nível da conservação do solo e combate à erosão, como contribuir para a fixação de insectos auxiliares e introduzir diversidade, embelezamento e refrigério. Em Julho deste ano, a colecção de plantas do talude ultrapassou as três dezenas de espécies diferentes. 


Outubro 2013 - A horta, no dia de ontem, ao fim da tarde. Um domingo... 

Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz - eles, eles...
Domingo...
Hoje é a quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo...
Nunca domingo...
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Sobretudo para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo...
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outrem nas hortas e ao domingo...

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos), Poesia, 9/8/1934