A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.

terça-feira, 12 de junho de 2012

O fascínio das PAM

Ocupando as bordaduras dos talhões ou o talude que divide as parcelas, são elas as guardiãs da nossa horta. À primeira vista, parecem um tanto ou quanto deslocadas de um cenário que nos habituámos a associar a pimenteiros, tomateiros, cebolas e alfaces. Mas olhando com atenção, facilmente nos convencemos da importância das plantas aromáticas e medicinais (PAM) para a prosperidade de lugares como este. Usando com inteligência as suas flores chamejantes repletas de néctar e as suas fragrâncias irresistíveis que rescendem a cânfora ou a menta, este tipo de plantas é responsável por trazer até à horta uma diversidade de insectos úteis que, atraídos por promessas de alimento, acabam involuntariamente por transportar grãos de pólen presos aos seus corpos e deste modo assegurar a fecundação, quer das próprias plantas aromáticas, quer, por exemplo, dos tomateiros, que por esta altura exibem as suas flores amarelas. Além disso, os aromas que atraem insectos bem-vindos à horta servem ao mesmo tempo para repelir outros indesejados, como as lagartas da couve ou uma série imensa de afídeos. É graças a estas plantas aliadas que se vem registando, por exemplo, um aumento da população de abelhas e a diminuição drástica de borboletas da couve desde que iniciámos o projecto da rua das hortas. Por isso, sempre que é possível, concentramos as nossas energias no adensamento da vegetação do talude, plantando mais e mais aromáticas. Da nossa colecção, ainda pouca extensa, constam as espécies que se seguem.        

Hissopo (Hyssopus officinalis
Está como peixe na água neste solo neutro a ligeiramente alcalino, com boa drenagem e exposição solar. Esta planta vivaz, que dura apenas 5 anos, é muito usada em consociações (afasta por exemplo a borboleta-da-couve e atrai as abelhas, contribuindo para a polinização). Consta que as suas flores azuis-escuras melhoram e muito as saladas e, em infusão, aliviam brônquios congestionados. Esta planta é oriunda de semente produzida em modo de produção biodinâmica pela empresa holandesa De Bolster.  

Tomilho-limão (Thymus x citriodora)
É uma planta híbrida cujo aroma inconfundível confirma o nome vernáculo da espécie. Os nossos exemplares apresentam folhas verdes, mas há variedades com folhas amarelas ou brancas. As suas flores, brancas ou ligeiramente rosadas, são um festim para vários tipos de abelhas que, nesta altura do ano, trabalham com afinco na colheita de néctar. Adaptou-se lindamente ao solo bem drenado e ao talude soalheiro da horta. Faz uma óptima infusão e maravilhas quando utilizado em aromaterapia para combater asma e outros problemas respiratórios. A maior parte dos exemplares veio dos viveiros do Monte do Menir.

Manjerona  (Origanum majorana)
Coisa que não falta na horta são locais soalheiros e solos bem drenados não demasiadamente ácidos, uma fórmula de que depende o êxito da nossa manjerona. Temo-la em diferentes sítios, pois é excelente a repelir todo o tipo de pragas e dizem até que melhora o sabor dos legumes, plantada entre filas ou na bordadura dos talhões. Todos os exemplares existentes vieram do Cantinho das Aromáticas.  

Salva (Salvia officinalis)
É uma planta que reclama terrenos com muita luz e de preferência calcários. As folhas, de textura  aveludada, têm larga utilização, embora se devam colher antes da floração para evitar o gosto forte a tanino. As flores roxo-azuladas, com as pétalas em forma de lábio (daí pertencerem à família das Labiadas,) dão uma excelente pista de aterragem para vários tipos de insectos úteis. Pelo contrário, exalam um forte aroma nada agradável aos sentidos das traças. Da vasta lista de aplicações na medicina, conta-se o tratamento de dores de garganta, má digestão, problemas hormonais e estímulo do cérebro. É também frequente o seu emprego em pastas dentífricas. Já na cozinha, é conhecida a sua fama na aromatização de vinagres e licores. As plantas existentes na horta são oriundas de sementes produzidas em modo de produção biodinâmica pela empresa holandesa De Bolster.  

Tomilho bela-luz (Thymus mastichina)
Também conhecida por sal-puro ou manjerona-brava, esta planta só se encontra na Península Ibérica, o que a torna um endemismo deste extremo sudoeste da Europa. Apesar disso, é um dos tomilhos menos conhecidos entre nós, embora dos mais extraordinários devido à riqueza dos seus óleos essenciais, igualmente bons a espantar insectos prescindíveis, e por se tratar de um recurso genético raro. Como o seu nome indica, é um substituto do sal, com a vantagem de ser aromatizado, e um recurso a ter em conta em casos de constipação e gripe. Na horta só temos (ainda) um pé desta planta, originalmente proveniente de uma estaca colhida junto às margens do rio Ardila, onde é relativamente abundante, e a sua adaptação está a decorrer lindamente.  
 
Segurelha-de-Inverno (Satureja montana)
Ao contrário da Satureja hortensis (Segurelha-de-Verão), a Satureja montana é uma planta 
perene, com um sabor picante. Acompanha muito bem guisados de carne e pratos de feijão. É imprescindível numa sopa de feijão-verde e opera milagres ao repelir pragas indesejáveis. Este exemplar é sucedâneo de uma planta criada no Cantinho das Aromáticas. 

Poejo (Mentha pulegium)
Embora existindo espontâneo junto à vala colectora de água que transborda do tanque, só conseguimos transplantá-lo uma vez com sucesso. A polegona é o composto essencial mais presente na planta, servindo para afastar pulgas (daí a designação científica desta menta) e outro tipo de insectos nocivos. É tido igualmente como um excelente formicida (os resultados melhoram se se esfregar as folhas nos locais infestados). Fervendo as suas folhas com figos e juntando, no final, mel ao preparado, obtém-se um belíssimo xarope para a tosse. Isto para não falar do licor de poejo, o licor de eleição do nosso Alentejo. 

Santolina (Santolina chamaecyparissus)
Aprecia sobretudo solos pouco ricos em nutrientes e bem drenados. As suas folhas prateadas exalam um aroma limonado que funciona muito bem como repelente de um grande número de insectos indesejáveis. As suas folhas esmagadas e friccionadas são eficazes no tratamento de picadas de insectos.  

Alfazema (Lavandula angustifolia)
Prefere terrenos férteis com boa drenagem e elevada exposição solar. É um bom repelente de mosquitos, melgas e moscas. Em contrapartida, as suas flores em espiga atraem abelhas e outros insectos melíferos. O seu óleo essencial é utilizado no tratamento de picadas, queimaduras, cortes e, como calmante, na água do banho. 

Alecrim (Rosmarinus officinalis
Um solo bem drenado e sem acidez e locais soalheiros como os que existem na horta, e o alecrim tem tudo para se tornar uma sebe viçosa e viscosa de óleos essenciais, altamente dissuasores de pragas e apetecíveis aos insectos aliados do hortelão. Esta é espécie mais presente na nossa horta.

Tomilho-vulgar (Thymus vulgaris)
É a espécie de tomilho mais representada na horta, onde encontra boas condições para prosperar. Neste momento, as suas flores repletas de néctar são um dos pastos preferidos de abelhas melíferas e outro tipo de insectos. Os tomilhos, de um modo geral, entram no tempero de vários pratos, com destaque para os de caça, ajudando a digestão e a decompor gorduras. Todos os exemplares existentes na horta vieram do Monte do Menir.  

Orégão (Origanum vulgare)
Solos bem drenados e óptima exposição solar eis a receita para conseguir orégãos saudáveis. É aliás o sol que contribui para impregnar as folhas desta planta de óleos essenciais ricos em timol, cuja fragrância atrai abelhas e pequenas borboletas coloridas. Os nossos exemplares surgem consociados com as culturas típicas da horta, de modo a facilitarem a sua fertilização. É uma das plantas obrigatórias na cozinha do Alentejo, sempre à mão ora para temperar azeitonas ora para aromatizar um pratinho de caracóis.  

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Um ovo de Colombo chamado PROVE



Como previsto, antes de ontem decorreu em Moura a entrega simbólica dos primeiros quatro cabazes PROVE, uma iniciativa promovida pela ADCMoura e incluída no programa da XII edição da Olivomoura. No fecho do certame foram recolhidas mais doze inscrições de consumidores, o que significa que se atingiu metade do número mínimo de aderentes para tornar possível esta nova forma de comercialização em Moura, que, esperamos, se traduza num significativo contributo para a economia de proximidade e o desenvolvimento local das populações. Cada cabaz entregue continha os seguintes produtos agrícolas da região, acabados de colher e cem por cento biológicos: molho de beldroegas, favas, ervilhas, laranjas, molho de coentros, molho de nabiças, cebolas, tomates, alface, molho de espargos do campo e embalagem de azeitonas aromatizadas com oregãos e cascas de laranja. Ao todo, dez quilos de produtos que o consumidor adquire por dez euros, com a vantagem da receita reverter na íntegra para o produtor, sem intermediários de permeio. Muito em breve, quando estiver constituído o núcleo inicial de consumidores PROVE de Moura, será divulgada a lista de produtos disponíveis para entrega. Nessa altura, o consumidor só terá de assinalar os produtos que não deseja receber e indicar a regularidade com que pretende levantar o cabaz: semanalmente, quinzenalmente ou mensalmente. As entregas serão feitas no Mercado Municipal de Moura, às sextas-feiras. E há mais: neste sistema, os produtores estão totalmente abertos para receber, nas suas explorações, os consumidores que quiserem ver com os próprios olhos como são produzidos os seus alimentos, fortalecendo-se desta forma laços de compromisso e amizade entre quem produz e quem consome. 
Para os que ainda não estão convencidos ou que contactaram só agora com a metodologia PROVE, deixamos estes testemunhos eloquentes publicados na respectiva brochura de divulgação, disponível em http://www.prove.com.pt/files/PROVE_Brochura_Definitiva.pdf :
"Os produtos do supermercado não têm a mesma qualidade. Estes produtos são o regresso à nossa infância na medida em que nos fazem lembrar aqueles sabores antigos" (Consumidora PROVE);
"Desde que aderi ao PROVE percebo a importância de conhecer as pessoas que todas as semanas produzem os alimentos que dou à minha família." (Consumidora PROVE)
"Até o nível de conservação dos produtos é melhor, duram muito mais tempo no frigorífico, têm outra aparência, outro sabor, não têm comparação com os do supermercado." (Consumidor PROVE);
"O futuro dos territórios rurais passa pela multifuncionalidade de produtos e serviços que têm para oferecer, assim como pela capacidade das pessoas para empreender e desenvolver. As populações rurais têm que sentir o desenvolvimento do seu território como um processo interno feito e executado por elas." (Técnica de Desenvolvimento Local)




sábado, 12 de maio de 2012

A horta vai à Olivomoura

A nossa horta está na Olivomoura à procura de novos/as hortelões/horteloas.   



HORTA COMUNITÁRIA DE MOURA
uma horta à mão de semear
quer produzir os seus alimentos?
quer poupar dinheiro?
quer praticar uma actividade anti-stress?
quer ser amigo/a do ambiente?
quer saber mais sobre agricultura?
quer ter uma horta e lançar a semente à terra?
Se respondeu Sim, então é a pessoa indicada para pertencer à Horta Comunitária de Moura.
Situada no Bairro do Sete e Meio, na rua das Hortas, a Horta disponibiliza:
· 12 talhões individuais de cerca de 35 m2 cada
· Áreas comuns de que todos usufruem e todos cuidam
· Abrigo de ferramentas e as próprias ferramentas
· Pilha de composto
· Tanque e equipamento de rega
. Regulamento de funcionamento e Acordo de utilização
. Formação técnica sobre temas agrícolas diversos.

Deixe a sua Inscrição na ADCMoura ou envie os seus dados por e-mail, referindo
que pretende ser Beneficiário/a da HORTA)
Organização: ADCMoura
Travessa da Misericórdia 4, 1º, 7860-072 Moura
T 285254931 adcmoura@adcmoura.pt www.adcmoura.pt
+ info | www.ruadashortas.blogspot.com

sexta-feira, 11 de maio de 2012

PROVE é cá da terra

Tem lugar hoje em Moura, no Pavilhão 2 da Olivomoura, pelas 19.00, a entrega do primeiro cabaz PROVE - Promover e Vender, numa acção da ADCMoura - Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Moura, em colaboração com a ADREPES - Associação para o Desenvolvimento Rural da Península de Setúbal, e que conta com a participação de produtores e consumidores aderentes. Este projecto insere-se no Plano de Acção "Regeneração Urbana do Centro Histórico de Moura" (Regulamento Política de Cidades - Parcerias para a Regeneração Urbana).  


PROVE
é cá da terra
quer receber um cabaz da horta personalizado?
com hortaliças, legumes e frutos da época
sempre frescos e de superior valor nutritivo
cultivados na região de Moura, em pequenas explorações
através de práticas tradicionais e amigas do ambiente
e, já agora, a um preço justo
Inscreva-se como consumidor/a
e (com)PROVE por si próprio/a.
+ vantagens:
Pode dispensar os produtos de que não gosta.
Pode receber o seu cabaz de acordo com
a periodicidade que mais lhe convém.
Pode visitar as hortas dos/as produtores/as
do Núcleo PROVE de Moura.
Compre local, PROVE por 10 razões:
1. Coma com qualidade
2. Compre apenas o que precisa
3. Pague o preço justo dos produtos agrícolas
4. Reduza os impactos ambientais
5. Tenha melhor serviço
6. Invista na sua comunidade
7. Fortaleça a economia local
8. Crie postos de trabalho
9. Estimule a prosperidade local
10. Preserve a identidade local


Deixe a sua Inscrição na ADCMoura ou envie os seus dados por e-mail, referindo
que pretende ser Consumidor/a do PROVE)
Organização: ADCMoura
Travessa da Misericórdia 4, 1º, 7860-072 Moura
T 285254931 adcmoura@adcmoura.pt www.adcmoura.pt
MAIS INFO www.adcmoura.pt/prove; www.prove.com.pt


segunda-feira, 30 de abril de 2012

Ah, destas favas, sim!


A fava é um daqueles legumes com o condão de dividir profundamente os "garfos" deste país, só comparável ao extremismo de posições suscitado pelo feijão frade: ou se morre de amores ou se abomina, apenas de ouvir falar. Para estes segundos, sem o gosto devidamente formado ou então professos de uma qualquer seita pitagórica, que defende a abstinência em matéria de consumo de favas, vai o pratinho que se segue inspirado no viçoso faval da nossa horta e na cultura gastronómica dos alentejanos, mais partidários de Epicuro, o tal que vivia de pão, favas e água.
Escolhem-se então as vagens (também chamadas de taludes ou canudos) mais tenras, com os grãos de leite, ou seja, ainda em formação. Descascam-se dois terços da porção escolhida e partem-se as vagens restantes em pedaços sem desalojar os grãos. Num como noutro caso, deve-se, antecipadamente, retirar o fio lateral dos taludes. Junta-se a primeira quantidade de vagens e grãos a um prévio refogado de cebola cortada e alguns alhos picados, com um fio de azeite como gordura. Tempera-se com sal e pimenta, cobre-se de água e deixa-se cozer durante uns dez minutos. Passa-se então o cozinhado com varinha mágica até obter-se um puré aveludado e lustroso, que cheira que consola. Está na altura de deitar os pedaços de vagens sobrantes e deixar cozer por mais uns minutos. Como opção, ficam bem uns ovos escalfados a acompanhar. Antes de servir, aromatizar com hortelã ou coentros.
Encete-se agora uma garrafa de bom vinho tinto e deixemo-nos levar pela inevitabilidade das coisas boas da vida, tal como Jacinto experimentou na sua chegada a Tormes.

"Foi ele (Jacinto) que rapou avaramente a sopeira. E já espreitava a porta, esperando a portadora dos pitéus, a rija moça de peitos trementes, que enfim surgiu, mais esbraseada, abalando o sobrado - e pousou sobre a mesa uma travessa a transbordar de arroz com favas. Que desconsolo! Jacinto, em Paris, sempre abominara favas!...Tentou todavia uma garfada tímida - e de novo aqueles seus olhos, que o pessimismo enevoara, luziram, procurando os meus (Zé Fernandes). Outra larga garfada, concentrada, com uma lentidão de frade que se regala. Depois um brado: 
-Óptimo!...Ah, destas favas, sim! Oh que fava! Que delícia! (...)
-Deste arroz com fava nem em Paris, Melchior amigo!
O homem óptimo sorria, inteiramente desanuviado:
-Pois é cá a comidinha dos moços da quinta! E cada pratada, que até Suas Incelências se riam...Mas agora, aqui, o sr. D. jacinto, também vai engordar e enrijar!"

Eça de Queiroz, A Cidade e as Serras (com correcções de Ramalho Ortigão), pp.143-144.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Rega melhorada e abençoada

No outro dia, juntaram-se os três prestimosos vizinhos à esquina, ao fundo da rua das Hortas, a dar palpites sobre a melhor maneira de instalar o sistema de rega na horta. Ao cabo de largos minutos a propor e a impugnar, o Zé Barão decidiu levar a sua avante, com a legitimidade de quem empunha uma chave inglesa, sob os olhares tolerantes do irmão, o Chico Barão, e do dono da ferramenta, o Zé Toino. Os dois resolveram anuir dessa vez e guardar-se para o dia seguinte, chamando a si a condução do restante da operação: colocação de Tê com duas torneiras à saída da válvula de cunha do tanque e entrada das mangueiras nas junções de latão, após adição de calor para as tornar mais dúcteis. Com este arsenal instalado, é possível não apenas regar a "tábua" do vizinho Chico Barão, como sucedia até aqui, mas também a "tábua" inferior da nossa horta comunitária, com rapidez e comodidade como convém, evitando-se o peso de regadores e correspondentes dores lombares. Por regar, com tubo verde carioca, assim se designa a vulgar mangueira, fica a parcela superior da horta, cuja cota supera a do tanque. Apesar do desnível, nada que uma pequena bomba de rega não consiga resolver. Nessa altura pensaremos também num modelo mais sustentável de rega, de tipo gota-a-gota. É nesta perspectiva de melhoria que se concentram a partir de agora os nossos esforços. Um último apontamento para lançar esta pergunta a quem de direito: ora por que carga de água haveria de começar a chover, logo nesse dia de instalação do sistema rega, e ainda não tínhamos terminado a tarefa, se há 169 dias não caía uma pinga de água por estas paragens?    


Juntaram-se os três à esquina: Chico Barão (à esquerda), Zé Toino (ao centro) e Zé Barão (à direita)


Antes da intervenção: válvula de cunha à saída do tanque


Desaparafusar a abraçadeira e retirar a mangueira da válvula


Colocação do Tê com as duas torneiras de esfera e adição de calor para facilitar a junção das mangueiras


Último esforço para as mangueiras entrarem nas junções


O Tê devidamente instalado: a mangueira que serve a nossa horta é a de baixo, ligada a uma união de redução de 3/4


Uma serpente desenrolada nos seus 60 metros de comprimento e 19 mm de diâmetro, com o curioso nome técnico de "tubo verde carioca"


Agora sim! - exclamam em linguagem vegetal os nossos legumes


Uma chuva benta (como convém) no baptismo do sistema de rega

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A nossa alegre casinha das ferramentas

Pensávamos nós que seria em menos de um fósforo, a montagem do abrigo para a alfaiaria agrícola da horta. Puro engano. Como se não soubéssemos de antemão que quem opta pelo "faça você mesmo" acaba, mais cedo ou mais tarde, por se meter em trabalhos. Foi o que aconteceu, em sentido literal e metafórico, que neste caso vem dar no mesmo. Entre recorrer ao folheto de instruções (leia-se carta de marear) e ao improviso da navegação à vista, entre desmanchar e refazer, entre tentar, errar e por fim acertar passaram-se quatro penosas horas e algumas bolhas nas mãos, o que dá a dimensão exacta do feito alcançado. Mais ainda se juntarmos o facto de, no final da empreitada e contra o que é costume, não haver lugar a peças fora do lugar e/ou remanescentes. Convenhamos que é obra! Outro consolo foi contar com um pronto-socorro chamado vizinho Aquilino, que, num exemplo de solidariedade para com o próximo, emprestou um canivete, uma parafusadora sem fio e uma gambiarra, sem os quais tudo teria sido mais difícil. Enfim, encaixadas e parafusadas as paredes e o telhado, lá se abriu finalmente a porta, já a lua espreitava sobre os telhados, para deixar passar os novos inquilinos desse T0 do Portugal dos Pequenitos, a saber: carrinho de mão, enxadas, pás, ancinhos, forquilhas, sachos, caixas e tabuleiros alveolares incluídos. Em suma, a horta conta agora com um novo equipamento, agradável à vista e bem integrado na paisagem envolvente: a nossa alegre casinha das ferramentas. 


A nossa alegre casinha


O recheio


A casinha mirando-se no tanque 

Acerca dos trastes que constam do novo equipamento, veja-se a sua descrição em José da Silva Picão, Através dos campos - usos e costumes agrícolo-alentejanos:

"Ancinhos - Utensílios de madeira uns e outros de ferro forjado ou fundido, de diversas dimensões, em feitio de pente, com maior ou menor número de dentes. Empregam-se nas debulhas dos cereais, principalmente nas eiras em que se trabalha pelos processos antigos, já para arrastar a palha do solo, já na limpeza do grão, extraindo-lhe os cachos e vários corpos estranhos."

"Enxadas - Ferramentas de ferro, largas e espalmadas, de cabo comprido de madeira, com que se cavam as terras para batatas, melanciais, vinhedos, etc. Adoptam-se de dois feitios: rasas ou raseiras, e pontiagudas ou de bicos. As primeiras servem com vantagem no terrenos arenosos, de fabrico fácil. As segundas usam-se nas terras argilosas e em outras que ofereçam resistência."

"Forquilhas - (...) Para as remoções de estrumes e palhiços adoptam-se forquilhas de ferro, de diferentes modelos e procedências."

"Pás - (...) Fora das fainas das eiras e da baldeação de cereais, empregam-se as pás de ferro inglesas."

"Sachos - Posto que figurem no ferramental de uma lavoura, é sempre em pequena quantidade. O seu maior emprego é nas mondas e sachas, mas aí, por costume antiquíssimo, são as próprias mondadeiras que os fornecem."