Antes de ontem, a chuva e o vento não deram tréguas e obrigaram-nos a cancelar o encontro marcado com a horta. Debaixo de telha, aproveitámos a pausa concedida pelo tempo meteorológico para avançarmos um pouco mais no conhecimento sobre o cultivo das plantas e a criação de hortas. Eis o sumário assinado pelo professor João: "Primeira abordagem ao tema da Fertilização - solo, fertilidade do solo, textura, classes, teores de M.O., factores de crescimento vegetal. Primeira abordagem ao planeamento da horta, com início da memória descritiva: escolha por cada formando das espécies a produzir neste Inverno tendoem conta o quadro das consociações. Início da discussão relativa ao aproveitamento das zonas comuns." Lá fora, enquanto se espalhava o cheiro da terra molhada pela cidade, as nossas plantas, seres do mundo inferior à mercê dos elementos, sopesavam cada gota de chuva como uma benção.
A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.
sábado, 29 de outubro de 2011
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Breviário da horta
A partir dos apontamentos da professora Dulce
Culturas perenes instaladas: Pilriteiro, Romãzeira, Figueira, Salgueiro-chorão; exploração do seu interesse nutricional, comercial e ornamental.
Culturas a instalar: temos 4 grupos de plantas a instalar:
I - Legumes (couves, favas, rabanetes, nabos, ervilhas, aipo, malaguetas...)
II - Plantas aromáticas e medicinais (tomilhos, salsas, alecrim, segurelha, coentro…)
III - Flores comestíveis (prímulas, amores-perfeitos, rosas…)
IV - Pequenos frutos (framboesas, morangos e amoras).
Neste espaço temos áreas individuais e áreas comuns / individuais:
A - Áreas individuais
De acordo com os objectivos dos formandos (gostos, autoconsumo, mercado…) e com a nossa orientação, eles deverão fazer um plano de culturas anual de modo a que a área dos talhões possa estar permanentemente ocupada e respeitar os princípios das rotações e consociações. As culturas são para autoconsumo ou são também para vender? Ex: O Hugo disse que só queria fazer favas…Em cada talhão, no mínimo, como regra, deveriam funcionar 3 culturas.
B- Áreas comuns /Individuais (parede (jardins verticais???), áreas inclinadas e ocupadas com pedras)
Estão previstas 4 áreas de apoio às hortas individuais, que irão funcionar como "motor" de apoio ao trabalho nas hortas:
B1-Área de compostagem (a organizar) - Fazer composto com os resíduos existentes, com o apoio de um biotriturador);
B2-Área de viveiro (já iniciada com sementes e estacas);
B3-Área do tanque de rega melhorada com algumas plantas do exterior;
B4- Área das plantas (flores comestíveis, pequenos frutos e algumas plantas aromáticas e medicinais.
Este “motor" vai ter um papel importante no/na:
-Equilíbrio fitossanitário (repele algumas pragas que atacam as culturas);
-Atracção de insectos auxiliares e/ou polinizadores;
-Melhoria do aproveitamento do espaço;
-Minimização da erosão;
-Melhoria do espaço em termos paisagísticos.
Para este espaço comum também deverá haver regras ao nivel de:
-colheita das plantas;
-utilização da água;
-utilização e elaboração de composto;
-utilização do viveiro.
____________________
Logo que o dia das sementeiras brilhar para os mortais,
deita-te ao trabalho (...)
e, seca ou alagada, trabalha a terra no tempo da lavra,
começando bem cedo, para que o solo produza em abundância.
Hesíodo, "Trabalhos e Dias" in Hélade (organização e tradução do grego de Maria Helena Rocha Pereira), 8ª ed., 2003
Mural do tempo
Antes
Durante
Depois
(...) Caminho no passeio rente ao muro mas não caibo na sombra. A sombra é uma fita estreita. Mergulho a mão na sombra como se a mergulhasse na água. (...)
Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética I, 1962
(...) E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito. (...)
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Caminho da Manhã" in Livro Sexto, 1962
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Cooperação e competição no reino vegetal
A domesticação pelo homem das primeiras plantas, que marcou o início da agricultura, levou também à criação dos primeiros sistemas de policultura, nos vales e várzeas fluviais da Mesopotâmia, antigo Egipto e China. Nessa altura, certamente, estava longe de se saber que duas ou mais espécies de plantas podiam, por exemplo, competir ou cooperar entre si, desde que suficientemente próximas para isso acontecer. Apetece dizer que a facilidade, em certos casos, ou a dificuldade, em outros, de as plantas se complementarem subsiste passados cerca de dez mil anos, embora hoje já seja possível perceber que essas interacções podem ter efeitos positivos (estimulantes) ou negativos (inibidores), e, consoante se trate de consociações favoráveis ou desfavoráveis, isso significar ou não melhorias, por exemplo, no combate às pragas, na utilização dos nutrientes do solo com possibilidade de maior produtividade, na diminuição de ervas infestantes devido ao sombreamento, etc. Percebe-se assim, pelas razões expostas, que este arsenal de conhecimentos seja hoje muito usado no âmbito da agricultura biológica. Explicando melhor: a ervilha e a cebola competem entre si, sem perfil, portanto, para cooperarem e criarem sinergias. Da mesma forma, não há nada a esperar duma relação entre a couve e o tomate, a não ser competição. O mesmo se aplica ao rabanete com a batata ou ao feijão com o alho. E muitos outros exemplos poderiam ser retirados da tabela de consociações desfavoráveis que a professora Dulce distribuiu na sala e que agora recorda à sombra do chorão. Nessa lista, a campeã da "animosidade à parceria" é a batata, vá lá saber-se porquê, sempre com aquela cara cheia de olhos negros. Ou seja, a batata regista mais situações de competição do que de cooperação: não tolera o aipo, beterraba, couve, ervilha, abóbora, girassol, tomate, ervilha, framboesa, e só se "desfaz" com o feijão, milho ou fava. No que à tabela das consociações favoráveis diz respeito, a alface e o morango levam a palma, pois cooperam com boa parte das suas congéneres. Questões de feitio, de temperamento das plantas? Como esclarece a ciência, cada espécie é capaz de segregar diferentes substâncias que favorecem ou prejudicam as que a rodeiam, podendo também ser usadas como armas no combate a certos e determinados parasitas. Juntar as plantas certas é, portanto, facilitar a cooperação e a criação de sinergias, o que só pode favorecer a biodiversidade e a sustentabilidade da nossa horta.
O despontar dos rabanetes
E ao sétimo dia, 19 de Outubro de 2011, a Natureza encarregou-se de criar os primeiros rabanetes, a que se sucederam, nos dias posteriores, os tegumentos mais temporãos de cenoura, nabo, salsa, alface e couve, todos eles ávidos de claridade. Para estes assomos tão prematuros de vida vegetal contribuíram não apenas a qualidade das sementes e uma mistura leve e arejada de substrato biológico e areia, mas igualmente a preciosa protecção do chorão da horta, que, com a sua longa cabeleira de hastes e folhas à rastafari, consegue impedir a luz directa no sobcoberto e manter a temperatura e a humidade em valores que, pelos vistos, são ideais para a germinação. E, claro, não esquecer o zelo posto na operação pelos nossos hortelões de serviço, as Anas (Filipa, Lúcia e Paula), a Teodora, a Judite, a Dina, a Isabel, o Hugo, o Jonas, o Joaquim, o Armando, o Jorge e os professores Dulce e João, sem o qual nada disto seria possível. Nos próximos tempos, com certezas de chuva e frio no horizonte, as plantas continuarão neste abrigo em tabuleiros alveolares, esperando nós que a formação do ziguezagueante polvo de raízes de cada uma delas se traduza, à superfície, no surgimento de mais e mais folhas, e, lá para diante, em recursos alimentares que se vejam e saboreiem. Enquanto isso não acontece, a professora Dulce vai dizendo que estas plantas estarão prontas para serem transplantadas quando apresentarem, pelo menos, três a quatro folhas. E nós acrescentamos: é melhor que sejam quatro, para dar sorte, tal qual o trevo de quatro folhas!
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
O longo muro alentejano e branco
Projecto I
O longo muro alentejano e branco
O desejo de limpo e de lisura
Aqui na casa térrea a arquitectura
Tem a clareza nua de um projecto.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O branco obstinado
Tal como combinado, deitámos todos mãos à obra. De pincel numa mão e recipiente de cal na outra, em menos de uma hora tínhamos o muro da horta caiado e ainda as paredes do tanque. De tarde voltámos para uma segunda demão, já então se notava o branco obstinado, de que fala o Eugénio de Andrade. Caiámos ainda o parapeito do muro, a fachada da casa de um vizinho desfavorecido e apanhámos todo o tipo de lixo existente na horta e nas imediações. No fim, ficámos orgulhosos com o nosso trabalho. E mais do que isso, reforçámos o espírito de equipa e os laços de camaradagem. Venham mais desafios destes!
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