A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Horta feliz

Passaram hoje pela horta mais de cem ilustres visitantes: alunos, professores e funcionários da Escola do Sete e Meio, presidente da Câmara Municipal de Moura, presidente da União de Freguesias de Moura e Santo Amador e os próprios utilizadores da horta. Respondendo a um convite da ADCMoura, vieram para celebrar o eclipse solar e a chegada da Primavera e, antecipadamente, o dia da árvore e da floresta e o dia mundial da poesia. À sua espera, uma mão cheia de actividades: percurso com passagem por 23 poemas alusivos à natureza e à nova estação, histórias contadas sobre legumes e plantas aromáticas, récita de poesia e canções interpretadas pelos alunos com acompanhamento musical do Joaquim Simões, plantação de aromáticas envasadas, cedidas pelo município de Moura. 
Depois de toda a animação, um lanche não menos animado.
No final, alguém deixou escapar: "Um dia para recordar e repetir". 
No final, os rostos de todos a dizerem que hoje é também o dia mundial da felicidade. 

Poemas escritos e lidos por alunos do 2º ano.

As árvores

As árvores da floresta,
São tão lindas como uma festa!
Sobreiros, laranjeiras e oliveiras.
Ameixoeiras, azinheiras e nespereiras.
Figueiras, tangerineiras e pereiras.
São as árvores da nossa região
Temo-las guardadas no nosso coração!

A horta do meu avô

O meu avô tem uma horta.
Não está acabada...falta-lhe a porta!
Na horta há vegetais.
Se os comeres não adoeces mais!
O meu avô João,
Tem cebolas e melão,
Alfaces e agrião,
Alhos e tomateiros,
Batatas e pimenteiros.
Tudo na palma da mão.
Guardados pelo seu lindo cão!

A primavera

Na primavera há flores
E também muitos odores!
Com o sol a aquecer,
As flores vão nascer e crescer!
Na casa da minha madrinha,
Mora lá uma andorinha...
Ela tem lá a casinha,
para criar a sua filhinha! 



Céu nublado reflectido no tanque com tartarugas, poema de ibne Sara. 


Ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva!, diz a Cecília Meireles


Porquê a pulga do O'Neill junto ao canteiro de poejos? (ver resposta mais adiante)


As ovelhas do vizinho Francisco aguardam que se abra a cancela para a récita de poesia.


A erva daninha, nem princesa, nem rainha.


Pincha a rã do charco pró prato.


A horta acabada de sair da letargia de Inverno.


Todos numa grande roda para receber o equinócio.


Pausa para leitura e encantamento. 


Chamamento da poesia ao longo da álea de aromáticas. 


A que fruto cheira esta planta? Depois de uma vintena de palpites, alguém respondeu acertadamente: abacaxi!  Daí o nome: salva-ananás!


O José Maria faz magia e tira uma cenoura da cartola.


(Resposta à pergunta feita atrás) É que o poejo serve para afastar as pulgas. Atente-se ao nome científico da planta: Mentha pulegium.


Uma cantiga sobre a natureza e os perigos que enfrenta interpretada por alunos do 1º ano.


Alecrim aos molhos pelos alunos do 4º ano.


Oliveirinha da serra em versão cigana.


Modas alentejanas acompanhadas ao acordeão pelo Joaquim Simões.


A que cheira este poema? Cheira a flores de alfazema.


Vamos lá plantar uma santolina.

terça-feira, 17 de março de 2015

Poesia na horta para celebrar a Primavera

A ADCMoura – Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Moura e a Escola do 1º ciclo do Sete e Meio, com o apoio da Câmara Municipal de Moura e da União de Freguesias de Moura e Santo Amador, a propósito do Dia da Árvore e da Floresta e do Dia Mundial da Poesia, que se celebram a 21 de Março, têm o prazer de convidá-lo/a a participar numa iniciativa de dinamização da HORTA COMUNITÁRIA DE MOURA, a realizar no dia 20 de Março de 2015, a partir das 10.00 horas (rua das Hortas, bairro do Sete e Meio, Moura).
Num ambiente que se pretende informal e de confraternização, o evento inclui um momento de apresentação da Horta, uma visita aos talhões cultivados nesta altura e ao talude de plantas aromáticas e medicinais para caracterização das espécies existentes, uma actividade de replantação de algumas plantas envasadas, uma récita de poesia a cargo das 4 turmas de alunos da Escola do Sete e Meio, sobre os temas da natureza e da Primavera, e ainda o acompanhamento musical de Joaquim Simões, ele próprio um dos utilizadores e entusiastas da Horta.
No final será oferecido um lanche aos participantes. Contamos consigo. A sua participação é muito importante.


Nota: Esta iniciativa é parte integrante do projecto "Eu participo! Moura também é comigo - Espaço de Participação Cidadã / Moura: Cidade e Território".






Dois poemas de Cecília Meireles para aguçar o apetite:

A chácara do Chico Bolacha

Na chácara do Chico Bolacha
o que se procura
nunca se acha!

Quando chove muito,
o Chico brinca de barco,
porque a chácara vira charco.

Quando não chove nada,
Chico trabalha com a enxada
e logo se machuca 
e fica de mão inchada.

Por isso, com Chico Bolacha, 
o que se procura,
nunca se acha.

Dizem que a chácara do Chico
só tem mesmo chuchu
e um cachorrinho coxo
que se chama Cachambu.

Outras coisas, ninguém procura,
porque não acha.
Coitado do Chico Bolacha.


Leilão de jardim

Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão.)

Cecília Meireles, in Ou isto ou aquilo, 1964

Alunos do 1º ciclo das escolas de Moura visitando a horta em Janeiro de 2012.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

As curgetes de Orwell

Diga-se trinta e três centímetros. Isto é, um palmo e meio. Ou seja, meio côvado. Para descrever o porte de uma curgete amarela colhida no talhão do amigo Carlos em Julho passado e que nos foi oferecida pelo próprio para uma tajine
Não trinta e três, mas três apontamentos rápidos sobre este legume da família das cucurbitáceas, a que também pertencem abóboras, pepinos, melões e melancias:
1) Na hora da curgete ir à mesa, o tamanho do fruto conta e de que maneira, mas não como seria de esperar. A escolha deve recair nos de menor dimensão, não mais do que vinte centímetros, da inserção do pedúnculo ao ápice.  Podia ser um adágio: se menores e imaturos, mais tenros e saborosos os frutos. Logo, a colheita deve ser prematura, até para evitar o excesso de sementes e o enfraquecimento da planta. 
2) As flores tubulares da curgete têm também assento na cozinha, e cada vez mais, sejam masculinas ou femininas, consumidas cruas, cozidas, recheadas, panadas ou como a imaginação ditar. Mas atenção: uma colheita desregrada pode pôr em causa a polinização e a viabilidade da produção. O mais avisado é poupar as flores masculinas e proceder à colheita dos frutos ainda com as flores femininas acopladas, quando estas já cumpriram o seu papel reprodutor. Ganha-se de três maneiras: um fruto óptimo, uma flor não menos e garantias de uma colheita escalonada até ao final de Outubro.
3) Se o objectivo são as sementes, o caso muda de figura: deve a sua extracção acontecer tardiamente, qualquer coisa como vinte dias após o início do amadurecimento dos frutos na planta escolhidos para este efeito. Depois de lavadas e bem secas à sombra durante alguns dias, as sementes devem ser armazenadas em recipientes herméticos. Se assim for, podem durar dez anos, com o seu potencial germinativo intacto.  
Aqui chegados e tendo resolvido testar a teoria com a curgete desmedida, pudemos (com)provar um epicarpo um tanto duro e um mesocarpo ligeiramente fibroso, mas nada que comprometesse a nossa tajine. Diz-se que em tempos de guerra...

Falar de guerra e curgetes serve de pretexto para abordarmos a publicação entre nós dos Diários de George Orwell, provavelmente o acontecimento literário do último Verão.
Ao longo de mais de setecentas páginas, o autor de 1984 e d'O Triunfo dos Porcos dá-nos nota, numa prosa enxuta e sem rebuços, de uma vida intensa quase sempre no fio da navalha: as viagens da juventude, as experiências duras de trabalho com os apanhadores de lúpulo e com os mineiros no País de Gales, a passagem por Marrocos, a tuberculose que o vitima precocemente, as pesquisas que precedem a escrita das suas obras e os acontecimentos políticos do seu tempo muito marcados pela II Guerra Mundial e pela ascensão dos regimes totalitários. Tudo isto intercalado de entradas mais descontraídas onde cabem observações da natureza e dicas sobre agricultura, paixão que partilha com a da escrita. Primeiro em Wallington, no Hertforshire, quando aluga The stores, em 1936, por sete xelins e seis dinheiros por semana, e, já depois de terminada a Guerra, em Jura, a ilha das Hébridas que escolhe para refúgio do bulício londrino, Orwell dedica-se de forma árdua e competente aos trabalhos do campo, a avaliar pelos Diários. De entre as notas dedicadas ao tema, boa parte delas integrando o Diário dos Acontecimentos que Levaram à Guerra, respigamos as seguintes, escritas entre Junho de 1939 e Junho de 1947, sobre o ciclo anual da curgete:

D 7.6.39: (...) Plantei dois pés de curgetes, cobrindo-os com panelas. (...)
D 8.6.39: (...) Preparei outro canteiro de curgetes, desta vez cavando menos fundo e colocando-lhe cerca de meio centímetro de aparas de relva por cima. Vou comparar os resultados deste tipo de canteiro com o outro. (...)
D 9.6.39: (...) Plantei mais dois canteiros de curgetes e retirei as coberturas dos outros. (...)
D 10.6.39: (...) As alfaces e as curgetes parecem-me bem. (...)
D 18.7.39: (...) As primeiras curgetes já estão a dar flores-fêmea. (...)
D 19.7.39: (...) Já se vê uma ou duas curgetes do tamanho de amendoins. (...)
D 21.7.39: (...) Esta manhã, abriu uma flor-fêmea de curgete; fechou de novo à noite, portanto presumo que foi fertilizada. (...)
D 11.8.39: (...) Cortei hoje a primeira curgete. (...)
D 7.10.39: (...) Descasquei e tirei as sementes de uma curgete grandinha (com cerca de 45 cm), e reparei que, depois de o fazer, só ficou cerca de 1,2 kg de polpa. (...)
D 12.10.39: (...) Cortei as folhas das curgetes para as deixar amadurecer. Deixei uma em cada planta, uma delas bastante grande. (...)
D 26.10.39: (...) As dálias enegreceram imediatamente (com a geada e o gelo), e receio que as curgetes que eu deixara a amadurecer estejam condenadas, visto terem ficado de uma cor estranha. Recolhi-as para casa e acrescentei os caules à pilha de composto, que agora ficou completa, à excepção da palha velha que ainda está no jardim. (...)
D 6.4.40: (...) Semeei curgetes e abóboras em vasos. NB. que as curgetes estão nos vasos que ficam mais perto da estrada. (...)
21.6.47: (...) As lesmas comeram uma das duas curgetes - é possível que recupere. (...)

George ORWELL, Diários (trad. Daniela Carvalhal Garcia), Publicações Dom Quixote, 2014.


33 cm.


Palmo e meio.


Meio côvado (bitola em pedra embutida no arco que sucede o alfiz da porta principal do castelo de Moura, utilizada durante o tempo em que a feira, criada em 1302 por D. Pedro I, teve aí lugar).



Trio de curgetes.


                                        Flores masculina e femininas de curgete.


 Talhão de curgetes.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O dono da horta toda

A terminar o ano, uma história passada no último Verão, em quatro andamentos.
1.Julho no seu apogeu e eis que um pato branco, sem dono nem mando, chega à horta. Marcando as devidas distâncias em relação ao ponto de onde o observamos, estuga o passo direito ao tanque, patina na baldosa e amara de quilha estilhaçando o espelho de água. Passa uma boa meia hora em circum-navegações exploratórias, como se nada fosse com ele, como se não tivesse de dar explicações. Depois, deixa a água e vem aninhar-se ao sol, alisando as rémiges sem despegar os olhos dos nossos, no fundo dos quais deve ter descoberto um qualquer sinal de fraqueza, do género: «a um pato tolera-se tudo».
2.Com o início de Agosto, o anatídeo convence-se de que somos São Francisco de Assis, e começa a aproximação. Que se torna atrevida no dia em que o surpreendemos a flanar ao longo de dois talhões em pousio, tasquinhando este e aqueloutro escalracho. Quando a criatura decide finalmente espojar-se e espenujar-se aos nossos pés, está segura de que vem aí o salvo-conduto para alargar a ronda a toda a horta.  
3.Em meados de Agosto, faz de tudo para retribuir e chamar a nossa atenção. É a altura em que nos habituamos ao som da restolhada vinda dos tomateiros enquanto cumprimos a rotina de desdobrar a mangueira e levar a água ao nosso talhão. Claro que só podia ser o Ranger em missão de patrulhamento, como sempre atascado num dos regos que a água já cobria, como sempre quase irreconhecível sob a lama que só lhe deixava ver os olhos.   
4.Julgávamos terem sido exploradas todas as possibilidades de mostrar serviço até àquela tarde de final de Agosto em que somos confrontados com a mais extraordinária das proezas. Deambulávamos ambos no caminho de serventia, ao longo da álea de aromáticas, quando derivou para mostrar o desvão, entre duas alfazemas, onde costumava pernoitar. Depois, sem que nada o fizesse prever, empinou a barriga até ao alecrim mais próximo, seleccionou duas ou três hastes mais carregadas, e não se fez rogado. Num abrir e fechar de olhos, longos rosários de caracóis acabaram sugados e rilhados - um aspirador não faria melhor -, por aquele bico longo e espalmado a lembrar dois palitos la reine justapostos. Um verdadeiro bodo ao nosso pato, que motivou o seguinte comentário: «Não te conhecia tão galfarro, ó pato. Ainda por cima, sorte a tua, os caracóis até já vêm temperados e servidos em espetos de alecrim». Ora, ora, tivesse esta cena acontecido no tempo em que os animais falavam, e outro pato cantaria, decerto com uma réplica deste jaez: «Deixa-te de histórias de patos, ó homem, e vai mas é buscar uma grade de minis para acompanhar o petisco, que se faz tarde». Palavra que foi isto que perscrutámos lá bem no seu imo, sem despegarmos os olhos dos dele.  

Para corroborar a veracidade desta história, leia-se o seguinte no Manual de Agricultura Biológica, edição da Agrobio de 1988, página 413: «Como medidas de carácter mais preventivo (contra caracóis e lesmas), indicamos as seguintes: (...) 2) colocar galinhas e patos (...) no terreno antes ou no final da cultura.» Já agora, as fotografias, para que não restem dúvidas.






segunda-feira, 28 de julho de 2014

A horta contada pelas crianças

-É segredo ou podemos saber o que mais gostaram da horta?
-Gostámos de tudo!
-A sério? 
-Sim. Gostámos do tanque e de ver as carpas, os barbos e os pimpões. A princípio pensávamos que era a brincar, mas depois vimos que eram peixinhos a sério. Gostámos também de ouvir as rãs a coaxarem numa poça ao pé do tanque.
-Apesar de estarem escondidas nos juncos. 
-Sim. E gostámos de saber que há plantas que têm nomes de pessoas.
-Se calhar são as pessoas que têm nome de plantas. Até com o primeiro nome e o apelido, tal como a...
-...Lúcia-lima.
-Planta de que se faz um chá maravilhoso. Sabiam?
-E gostámos muito do poema que fala sobre ela.
-Vamos relê-lo?
-Sim.
o tem boca nem pulmões.
Que não tenha não admira.
porque é pelas folhas,
que a lúcia-lima respira.


Não tem boca nem pulmões,

nem veias, a lúcia-lima!
Mas tem seiva, quanto basta,
a subir pelo caule acima.


E se porventura a ferirem,

acaba por cair no chão.
A não ser que alguém lhe dê,
logo uma transfusão.»

-Gostámos também de conhecer a hortelã do Sporting. 
-Do Sporting ou do Benfica?
-Do Sporting. Porque as suas folhas são verdes e brancas, como as camisolas do Sporting. 
-Os meninos que são do Benfica é que queriam ver uma hortelã encarnada, mas parece que não existe... Já agora, gostaram de a retirar do vaso e plantar no jardim da horta?
-Sim, foi muito giro. Cavámos todos um bocadinho e fizemos um buraco onde ela coubesse. No fim, regámos com o regador.
-E depois?
-Depois gostámos de conhecer a planta mais cheirosa da horta.
-Que se chama?
-Tomilho bela-luz. 
-E lembram-se do outro nome por que era conhecida antigamente?
-Sal purinho.
-E porquê sal purinho? Está-se mesmo a ver...
-Porque é um pouco salgada.
-Por isso, quando não tinham sal, as pessoas usavam esta planta para temperar os alimentos.  
-E porque faz melhor à saúde.
-Bem observado. E agora, esta planta, o que sabem sobre ela?
-Chama-se salva e serve para fazer pasta de dentes. Até experimentámos trincar uma folha para sentir o sabor refrescante.
-Já acabaram?
-Não. Ainda falta falar dos talhões dos senhores e das senhoras que vêm cavar a horta. 
-E o que produzem eles e elas?
-Muita coisa. Alfaces, tomates, ervilhas, favas, cenouras, feijão e outras coisas. Assim não precisam de ir ao supermercado gastar dinheiro.
-Para além disso, são legumes biológicos. O que quer dizer biológicos?
-Que não levam pózinhos que fazem mal à barriga das pessoas.
-Das pessoas, dos animais e da natureza em geral. Muito bem. Agora temos aqui estes ramos de plantas aromáticas para vocês levarem para a vossa sala. Mas antes de partirem, vamos ler um poema que fala de uma destas plantas. Vamos ver se vocês descobrem qual é. Diz assim:

«Fecha os olhos bem fechados,
e diz-me a que é que cheira.
Cheira a rosa, cheira a nardo,
ou a flor de laranjeira?



Nem a rosa, nem a nardo,

nem a cravos, nem a cravinas
me cheira este poema.
O que me chega às narinas
é o cheiro a...»

Então? Digam alto! Alfa...
-...zema.
-Certo!

Peixinhos da horta


A hortelã do Sporting

Os senhores que cuidam da horta

A salva para fazer pasta de dentes


Feijão rasteiro e feijão "trapezista"


Cheira a alfazema


A horta comunitária foi visitada no passado mês de Maio por crianças e educadoras do Centro Infantil Nossa Senhora do Carmo. Este "trabalho de campo", como lhe chamaram, constituiu uma das actividades pedagógicas do projecto Semeando ciência...bem no interior do Alentejo, desenvolvido durante o ano lectivo 2013/2014 nesta instituição mourense de ensino pré-escolar. Projecto integrado e multidisciplinar que se centrou na criação de uma horta escolar (com rega gota-a-gota accionada por painel solar) e que proporcionou «inter-relações e pontes de aprendizagem entre recursos naturais (actividades em torno da motivação, preparação e cultivo de legumes na horta), ciência (experiências e pesquisas realizadas pelas crianças no âmbito da vida vegetal e animal da horta e da energia do sol) e tecnologia (actividades em torno do painel solar e do aproveitamento do sol como recurso natural)». Candidatado ao Prémio Fundação Ilídio Pinho - Ciência na Escola, este projecto viria a ser distinguido com uma menção honrosa. Ainda que com o contributo de muitas entidades, este sucesso deve-se acima de tudo a uma equipa de directores e educadores com visão de futuro, que conseguiu envolver e mobilizar as crianças, as suas famílias, parceiros institucionais, como a ADCMoura, e comunidade em geral nesta relevante acção de promoção da cultura científica na escola, a partir da rentabilização dos recursos naturais locais, que vai certamente continuar a dar frutos nos próximos anos ou não se chamasse Semeando ciência. Muitos parabéns!  

Os poemas são de Jorge Sousa Braga, Herbário, Assírio & Alvim, 2ª edição, 2002.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Hortas, compostagem e Goethe

Cascas de tubérculos e frutos, restos de hortaliça e legumes, borras de café e saquetas de chá, cascas de ovos e folhas secas de arbustos contam-se entre os resíduos orgânicos depositados no nosso ponto de recolha doméstico, à espera de serem compostados. Representam diariamente qualquer coisa como meio quilo e metade do lixo indiferenciado produzido por uma família de três elementos. Ao fim de uma semana a seleccionar e armazenar, são cerca de quatro quilos de resíduos domésticos que desviamos, com vantagens diversas, dos sobrelotados aterros sanitários da região para os compostores instalados na horta, onde são transformados e de seguida incorporados, sob a forma de adubo gourmet, no ciclo produtivo.
Graças à horta e à compostagem, o que antes era lixo ganha agora estatuto de matéria-prima. Chama-se a isto saber utilizar os recursos com eficiência e sensatez, partindo do princípio de que tudo foi feito, a montante, para reduzir o seu desperdício. E nós garantimos que sim.
Vale a pena determo-nos nesta combinação frutuosa horta-compostagem: evita o uso de fertilizantes químicos e outros insumos não-naturais, contribui para a redução do custo de gestão dos resíduos domésticos e gera impactos positivos no meio ambiente, na nossa saúde e na nossa carteira.
Além disso, com estes simples gestos, estamos a retomar o curso duma longa história de que nos afastámos, enquanto comunidade, nas últimas décadas, a qual remonta às origens da agricultura neste território e se sedimenta num valioso património de práticas sustentáveis, de que o aproveitamento de estrumes de origem animal e de desperdícios das cozinhas e colheitas sempre fez parte.
Em conclusão, produção local de alimentos e tratamento local de resíduos foram sempre funções inerentes às hortas tradicionais, as de Moura, em particular, e as do mundo mediterrânico, em geral, mas que agora, em tempos de transição, podem e devem ser consideradas com renovado propósito.



E por falar em (a) propósito, reza assim o trecho seguinte, escrito em Nápoles no dia 28 de Maio de 1787: 

«As redondezas de Nápoles são uma horta pegada, e dá gosto ver a quantidade de legumes que todos os dias são trazidos para a cidade, e como as pessoas se ocupam a levar de volta para os campos os restos, deitados fora pelos cozinheiros, para acelerar o ciclo da vegetação. Com um tal consumo de legumes, os talos e as folhas de couve-flor, brócolos, alcachofras, couves, alface, alho, constituem uma grande parte do lixo napolitano; e eles procuram fazer o que podem por isso. O burro traz no lombo dois grandes cestos flexíveis que não se limitam a encher, completam-nos ainda com um monte em cada um, feito de um jeito muito especial. Não há horta que floresça sem um burro destes. Um criado, um rapaz, por vezes o próprio patrão, vêm todos os dias, às vezes mais que uma vez, à cidade, que é para eles uma mina a qualquer hora que cheguem. É fácil de imaginar como estes homens andam atrás do estrume de cavalos e mulas. Não saem das ruas quando cai a noite, e os ricos, que depois da meia-noite saem da ópera, não pensam provavelmente que antes do nascer do dia um homem diligente terá recolhido os vestígios dos seus cavalos. Asseguram-me que algumas destas pessoas se juntam, compram um burro e arrendam a um proprietário um pedaço de terra batida, e, com o seu trabalho e o clima favorável, em que o ciclo da vegetação nunca se interrompe, em pouco tempo conseguem alargar significativamente o seu negócio.»  (Johann Wolfgang von Goethe, Viagem a Itália (Italienische Reise, 1786-1788), tradução, prefácio e notas de João Barrento, Relógio d'Água Editores, 2001, pp.406-407.

Como escreveu Orlando Ribeiro, a obra epistolar/diarística Viagem a Itália, do romântico Johann Goethe (sim, esse mesmo, o autor de Fausto e Werther), registando as suas deambulações, entre 1786 e 1788, através de uma Itália então dividida em reinos, «é o primeiro encontro da cultura germânica, na época da sua eclosão, com o ambiente e a tradição do Mediterrâneo». Encontro marcado por um permanente deslumbramento, quer diante do mundo clássico da história e da arte, quer perante o mundo novo da natureza e do património rural mediterrânicos, com uma atenção particular dada às paisagens e aos aspectos pitorescos das práticas agrícolas. Apesar dos anos passados, continua a ser uma obra relevante da vasta bibliografia acerca do Mediterrâneo, sobretudo para o conhecimento da idiossincrasia transalpina. 


domingo, 4 de maio de 2014

Rosas e espinhos

Maio, mês das rosas. Também na nossa horta. Lembrar que em Novembro de 2011 eram apenas simples estacas ou roseiras em potência. E que, passados dois anos e meio sobre a clonagem, botões prenhes e outros desabrochados vieram coroar-nos. Quanto aos espinhos, já lá estando no momento da estaquia, continuam presentes no ramalhete. O que seria (d)a rosa sem espinhos, (d)a beleza sem senão, (d)o amor sem desenganos, d(o) saber sem a ilusão?




Passam este ano 450 anos sobre a morte de William Shakespeare e passa hoje uma semana sobre a morte de Vasco Graça Moura, a quem se deve a tradução integral e insuperável, para a língua portuguesa, dos Sonnets do autor inglês. E porque as rosas têm espinhos, elegemos o soneto trinta e cinco, de uma sequência de cento e cinquenta e quatro.  

35.

No more be grieved at that which thou hast done;
Roses have thorns, and silver fountains mud;
Clouds and eclipses stain both moon and sun,
And loathsome canker lives in sweetest bud.
All men make faults, and even I, in this,
Authorizing thy trespass with compare,
Myself corrupting, salving thy amiss,
Excusing these sins more than these sins are:
For to thy sensual fault I bring in sense;
Thy adverse party in thy advocate,
And 'gainst myself a lawful plea commence:
Such civil war is in my love and hate
       That I an accessory needs must be
       To that sweet thief which sourly robs from me.

35.

Do que fizeste a dor não te possua:
rosas têm picos, fontes de lama prata,
nuvens e eclipses turvam sol e lua,
no mais doce botão vil verme acama.
Os homens todos erram e eu segui-os
abonando-te a falta com perdão;
corrompo-me remindo os meus desvios,
mais erro é desculpá-los do que o são.
Se à falta dos sentidos dou sentido,
a parte a ti adversa é o defensor
e contra mim o pleito é dirigido,
eis em guerra civil meu ódio e amor
        e tal que a ser um cúmplice me impele
        de quem me é ladrão doce e cruel.

Vasco Graça Moura, Os Sonetos de Shakespeare, Bertrand Editora, Maio de 2002