A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Partilhar sementes

Reunião Tupperware? Showroom de varinhas mágicas? Nem uma coisa nem outra. É o José Mariano, da Colher para Semear, a tentar extrair sementes de uma beringela, rodeado de uma plateia de passantes que aguarda, suspensa, pelo desenlace da operação. A tentar, porque a beringela não apresenta ainda aquele tom amarelo dourado, sinal de que o fruto está bem maduro e as sementes no ponto para guardar para sementeiras futuras. Não sendo ideais, as condições existentes não o impedem de continuar com a demonstração e de obter as tão desejadas cápsulas que preservam a vida através do espaço e do tempo, muitas vezes em condições hostis, com todos os requisitos de sobrevivência no seu interior. 
Em plena Feira de Setembro, em Moura, o José Mariano principia por descascar e cortar a beringela em bocados desiguais. As sementes estão à vista na polpa, mas não propriamente à mão de semear. Retirá-las uma a uma com as pontas dos dedos está longe de ser tarefa fácil. Por isso, nada melhor do que um truque para agilizar o processo e poupar na paciência. A solução tem tanto de magia como de simplicidade desarmante. Magia é a palavra certa, até porque é aqui que entra a varinha mágica. Os pedaços de beringela são deitados num liquidificador, com um pouco de água não tratada, dentro do qual trabalhará a varinha em baixa rotação para desfazer aos poucos a polpa sem danificar as sementes. Estas acabam por soltar-se e afundar-se na calda. Ao contrário, os restos de polpa ficam a flutuar à superfície, o que facilita a sua remoção. Em seguida, o líquido com as sementes é passado pelo coador, que retém apenas o que interessa. Deixadas a secar num prato até que não reste qualquer vestígio de humidade, as sementes estarão finalmente prontas para serem guardadas hermeticamente em frascos de vidro e etiquetadas com o nome da variedade e o ano da colheita. 
Duas regras de ouro a reter para qualquer secagem que envolva frutos, como a beringela: apanhar sempre os frutos mais sãos situados ao nível inferior da planta e secar sempre as sementes à sombra. Tratando-se de uma variedade tradicional ou regional cuja pureza se pretende preservar, torna-se necessário proceder diferentemente se estamos em presença de uma planta cujo sistema de reprodução é por autopolinização e autofecundação ou se se trata de uma espécie de polinização cruzada, promovida pelos principais vectores: o vento e os insectos. No primeiro caso, a variabilidade é limitada, existindo baixo risco de cruzamento. Nesta categoria encontramos espécies como a alface, beldroega, ervilha, feijão, grão-de-bico ou tomate. No segundo caso, ao invés, a variabilidade é grande, existindo alto risco de cruzamento. Para espécies com estas características, é necessário estabelecer uma distância de isolamento entre variedades diferentes da mesma espécie, que pode variar entre 50 a 100 metros no caso da beringela e entre 3000 a 8000 metros no caso da beterraba, para se garantir uma elevada pureza varietal. Ainda para contrariar o desenvolvimento de híbridos, pode-se sempre recorrer a exemplos de polinização controlada pelo próprio homem: tapando todas as plantas da mesma variedade com rede mosquiteira, e desde que se introduzam no interior insectos polinizadores, ou ligando manualmente flores macho e flores fêmea e fechando de seguida a flor fêmea já fecundada com fita adesiva de fácil remoção para não condicionar ou impedir mesmo o crescimento do pedúnculo.   
Em suma, e esta foi a mensagem principal deixada pelo José Mariano, compete a cada um, sobretudo quem faz agricultura e é utilizador de hortas, recorrendo a procedimentos simples, contribuir para a conservação das sementes de variedades tradicionais e da biodiversidade no seu todo, sementes essas que não estão patenteadas e que são portanto património de todos.   
Falando do nosso contributo e respondendo a um desafio lançado pelo José Mariano, tornámo-nos em fiel guardião de um exemplar de uma variedade tradicional de tomate que o próprio nos confiou: o tomate-de-viagem. O compromisso firmado passa por extrair e guardar as respectivas sementes, lançá-las à terra no tempo próprio e partilhar parte da colheita com outros animados do mesmo espírito, de modo a que também esses procedam à conservação e multiplicação das sementes, de modo a que todos juntos consigamos garantir a continuidade da variedade. 
Espaço de partilha por excelência, que melhor sítio do que a horta comunitária para lançar e consolidar esta ideia que diz respeito ao nosso futuro comum. 

Que fizeste das palavras?
Que contas darás tu dessas vogais
de um azul tão apaziguado?

E das consoantes, que lhes dirás,
ardendo entre o fulgor
das laranjas e o sol dos cavalos?

Que lhes dirás quando 
te perguntarem pelas minúsculas
sementes que te confiaram?

Eugénio de Andrade, Matéria solar, 1980)


O vórtice das sementes de beringela

Exemplar de tomate-de-viagem

Um bago para consumir em cada paragem do périplo 

Sementes do mesmo tomate, prontas para mais uma etapa da longa viagem da sobrevivência 

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

A não perder

A ADCMoura - Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Moura organiza na manhã do dia 14 de Setembro, sábado, no âmbito da XXXIII Feira do Artesanato de Moura / IV Mostra Transfronteiriça de Aromas e Sabores, a Jornada Transfronteiriça sobre Secagem de Plantas Aromáticas e Medicinais.
O objectivo da jornada é o de apresentar e debater diferentes soluções técnicas para secagem de plantas aromáticas e medicinais (PAM), considerando a qualidade do produto obtido, os custos, a adequação e os impactos. Esta iniciativa conta com a participação de produtores de PAM e de fabricantes de equipamentos de secagem, de Portugal, Espanha e Itália, para falarem das suas experiências e apresentarem soluções neste domínio (ver mais informações aqui). 
Ainda no âmbito do certame de Moura, a ADCMoura realiza no dia 13 de Setembro duas oficinas com os temas "Redes colaborativas de produção local" (entre as 10 e as 13 horas, conduzida pela Casa do Sal; ver mais informações aqui) e "Selo de Comércio Solidário e Sustentável" (entre as 15 e as 18 horas, a cargo da Ecogerminar; ver mais informações aqui). 

Finalmente, no domingo, dia 15, a ADCMoura promove uma oficina sobre "Recolha e conservação de sementes", orientada por José Mariano, da Colher para Semear (ver mais informações aqui).
Iniciativas que os interessados/as em PAM, hortas, agricultura biológica e desenvolvimento local não vão, seguramente, querer perder.          



Jesús Cia, director da Josenea, vem a Moura falar de secagem de PAM 




José Mariano, da Colher para Semear, estará de novo em Moura, depois da sua passagem em Dezembro de 2011 (ver neste blogue aqui)

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A luz da cal

Uma arroba de pedra de cal e uma hora para se transformar em cal aérea. Três semanas a estagiar, depois de extinta. Cento e oitenta metros quadrados de muro e tanque para caiar. Uma mão cheia de voluntários. Alguns com vasta experiência do ofício e todos com vontade de devolver àquelas paredes o branco obstinado da arquitectura do sul. Seis da manhã, pela fresca, em meados de Julho de um ano ímpar. Três camadas de leite de cal sobrepostas em outros tantos dias. Quanta magia, do branco translúcido ao branco opaco. Assim se renova a luz da cal na nossa horta. 

"Procurando uma síntese definidora do Alentejo, tal como o vejo, direi que ele é a luz da cal e a extensão, a seara cor de sol, sob a intensidade do azul; e que nessa extensão acontece, de longe em longe, a quieta serenidade dos sobreiros e das azinheiras. Pureza, miragem do absoluto, voto de vida livre e de transcendência. Um povo pobre e altivo. Terra de muito poucos e, ao mesmo tempo, terra de ninguém. Ou terra de todos para todos, terra do impossível. Do sonho feito vida."  

Excerto inicial da obra, A luz da cal (2006), de Urbano Tavares Rodrigues, escritor que cresceu em Moura e que faleceu sexta-feira em Lisboa com 89 anos, e para quem a cal é grumosa, reverberante, cegante, sarracena.










terça-feira, 23 de julho de 2013

Figos lampos

Uma coisa boa do Verão? A figueira da horta carregada de figos reis de Olivença. De Junho a Setembro, desfaz-se ela em frutos arreganhados, com pérolas de mel, e desfazemo-nos nós, compulsivos apreciadores, em delíquios de prazer. A abrir a temporada, os figos lampos, grados mas esparsos, para pelar e comer frescos. No termo da estação, os figos vindimos, miúdos e em cachos, mais indicados para secar numa esteira de canas e guardar com essências de funcho.  
Por isso mesmo, com Agosto à porta, há que aproveitar os últimos lampos, sem deixar de saborear a magia das manhãs frescas passadas entre as ramagens da figueira. 
E quando já não se vai lá em bicos de pés, resta a cana aberta em forma de roca para alcançar os figos mais distantes. A mesma cana que pode servir para esgrimir com os atrevidos papa-figos, apesar de pouco adiantar: - Viste lo abade? - Lá o vi, lá o vi. - Com'ia vestido? - Ia com'a mi. - Comeste-los figos? - Pois comi, comi! 
Em breve, o tempo dos figos passará o testemunho ao tempo das uvas. Os papa-figos rumarão para latitudes mais a sul e nós iniciaremos também uma longa travessia a suspirar por essas manhãs luminosas. Até que venha outra vez Junho apaziguar a fome de figos frescos.

  "De repente uma das irmãs do cónego perguntou-me em voz trémula:
     - Gosta de figos lampos?
     - Sim, minha senhora, muitíssimo.
     - Por causa deles o fizemos esperar - ajuntou outra.
     - Nós é que os fomos apanhar ao quintal com as nossas lanternas - observou a terceira.
     E cada uma por seu turno:
     - Apanhados de noite são mais frescos.
     - E mais gostosos.
     - Os figos lampos!
     - Os figos lampos!
     - Os figos lampos!
     Cada uma delas repetiu, soluçando:
     - Os figos... lampos... - e depois, à uma, em desatado choro:
     - O que a nossa mãezinha gostava deles!...
     Aqui interveio Monsenhor, lacrimoso também:
     - A nossa boa mãezinha... já... lá...está... já morreu!
     - Não morreu... não morreu... - protestaram elas com ruidoso pranto.
     - Morreu e já... não... come... figos... lampos...
     - Ai! não diga isso, mano, não diga isso...
     - Nós já vamos ver... se morreu...
     - Vamos lá...
     - Vamos lá...
     E as três senhoras levantaram-se e, em gritos feridos, sumiram-se nas trevas do corredor, deixando-me mudo de verdadeiro espanto.
      Mas eu sentia fome e como o cónego recaísse em modorra - sem dar outro acordo de si além do febril movimento dos dedos que enfiava e soltava dos buracos da cadeira - pensei que ao menos havia de provar os tais figos lampos, causadores de tão excruciantes recordações.
     Apalpei no montão, escolhi aquele que me pareceu mais maduro, pelei-o e quando o levava à boca, para que Monsenhor não reparasse tanto na minha sem-cerimónia, digo-lhe:
      - E a mãe de V.Exa. morreu de muita idade?
      - Morreu de... uma cólica... a pobrezinha...
      - Há quantos anos?
      - Morreu hoje... hoje... às duas da tarde...
      - Ó demónio! - soltei eu involuntariamente, deixando cair o figo no chão. - E já se enterrou?
      - Não senhor... Está lá dentro com as visitas... Quer o meu... amigo vê-la... e rezar-lhe um padre-nosso...e uma... avé-maria por alma?...
      - Decerto... E logo sairei em busca de outra pousada, pois compreendo muito bem como deve ser importuna a V.Exas. a minha estada aqui...".

Manuel Teixeira Gomes, "Gente singular" in Gente singular (livro de contos), publicado originalmente em 1909 (3ª edição, Portugália Editora, 1959). Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), natural de Portimão, trocou um curso de Medicina quase concluído pelas viagens pelo mundo, do Norte da Europa a África, do Mediterrâneo à Ásia, enquanto representante da empresa de exportação da família, que haveriam de reflectir-se numa obra literária inovadora e cheia de ironia. Antes de se fixar na Argélia, onde acabaria por morrer, foi Presidente da República entre 1923 e 1925. 



















quarta-feira, 10 de julho de 2013

Cal viva

A ADCMoura - Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Moura convida todos/as os/as utilizadores/as da Horta Comunitária de Moura (e todos/as os/as interessados/as) a participarem na caiação do muro e do tanque no dia 20 de Julho, sábado, a partir das 6 horas (para aproveitar o fresco da manhã). Só é preciso trazer de casa um pincel e um recipiente para a cal, que será preparada durante esta semana e ficará a estagiar até ao dia da caiação. Convém ainda vir prevenido/a com luvas e roupa própria para a tarefa. Contamos consigo para tornar a Horta um lugar ainda mais bonito e aprazível. A sua participação é importante! 



Há 2 anos foi assim...






sexta-feira, 28 de junho de 2013

Borda d'Água

Por falar em Borda d'Água, almanaque muito em voga nos últimos tempos, eis a nossa proposta com tarefas para este mês:
Continuam as regas, de manhã e de tarde, as sachas e as mondas.
Capam-se os melões, tomates e pepinos.
Há abundância na horta: colhem-se cebolas, espargos, alcachofras, cenouras, tomates, pimentos,  feijão-verde, alhos, batatas, melões, morangos, etc.
Nos viveiros continuam as sementeiras periódicas de feijão carrapato, alfaces e rabanetes de Verão.
Continua a plantação de tomates, melões, beringelas, pimentos, batata doce.
Limpeza dos espaços e monda de plantas infestantes. Manutenção da pilha de composto.
Rega das plantas aromáticas e medicinais existentes no talude e no canteiro junto à entrada.
Se for ano ímpar, é altura de caiar o muro e o tanque. Colheita dos figos lampos. 

Fotografias da horta, tiradas hoje, 28 de Junho, dia de santo Irineu, entre as 5.48h e as 10.02h.

Feijão-verde alpinista

Uma troika vegetal de tomateiros, couves e abóboras

Tomateiros malabaristas 

Feijão-verde contorcionista

O sol despontou às 6.14h

As nossas vizinhas de posse de uma romãzeira

Cebolas regaladas

A Filipa e o Zé Maria em limpezas prévias à caiação do muro


Um batatal que dá gosto


 
Pimentos, cebolas e tomates trabalhando para o bronze

Geometria de talhões cultivados e talhões em pousio

Tanque com água de nascente: a alma da nossa horta 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O guardião da horta

Entrou na horta no ano passado, por estes dias. Começou por cuidar do seu talhão e em pouco tempo já cuidava de mais dois ou três, de utilizadores que lhe confiavam a rega ou pediam outro tipo de apoio. Preferia ter trabalho acrescido, a ver as parcelas com ervas e descuidadas. Apesar de solícito, fazia-lhe confusão os que não tinham vagar para passar todos os dias pela horta, desculpando-se com o emprego e as obrigações familiares.  Durante o último Verão, como um ritual, todos os dias antes do nascer do sol, saía da sua casa na Mouraria para regar a horta. E sempre que sobrava tempo, para cuidar dos seus criadeiros, modelar regos perfeitos, colher um molho de beldroegas para a sopa ou meia dúzia de tomates para a salada. A meio da manhã tomava o pequeno almoço debaixo da figueira, rendido aos figos lampos que afiançava serem "reis de Olivença". Em Setembro, destinara parte dos figos vindimos à secagem, feita em esteiras de pano estendidas no chão. Gestos e saberes que não tinham segredos para ele e que constituíam, sem o suspeitar, parte de uma herança confiada a sucessivas gerações por um distante antepassado mudéjar, que vivera há muito no seu bairro e tivera uma horta semelhante na várzea do Brenhas. Aproveitava depois a tarde e a sombra da figueira para dormitar. E para engendrar novos projectos para a horta. Como o engenhoso sistema de rega, que concretizou com recurso a condutas, subcondutas e uniões, mais o detalhe da lei da gravidade. Outros projectos, como o reforço da vedação da horta, já não verão a luz do dia com ele por perto, de mangas arregaçadas, boina na cabeça e cheio de energia. Essa mesma energia que contagiava e que nunca deixou prever o desfecho vertiginoso que se seguiu. Neste Inverno, ainda semeou ervilhas e favas sozinho. No início da Primavera, já bastante debilitado, pediu que o ajudassem a cavar a terra para semear batatas. De repente, a enxada, com que sempre lutou, passou a pesar toneladas. Resistiu na horta o mais que pôde, por último sentado na sua cadeira amarela, ainda e sempre burilando planos. Mesmo cercado pela doença, a horta nunca deixou de lhe preencher os dias e as preocupações. Tanto assim que, já moribundo, na cama do hospital, só perguntava pelas suas batatas, que não pôde ver viçosas e floridas. O senhor António deixou-nos ontem e desceu hoje à terra, sempre a mesma terra, como um prolongamento da sua vida, a sua própria vida.     


"À noite, quando se ouvia respirações pesadas e gritos nos corredores, as enfermeiras entravam no quarto para lhe pegarem nos braços e a levarem para a cama. Em camisa de dormir, despenteada, caminhava pelo quarto e, na escuridão, distinguia a horta. Quando as enfermeiras entravam, dizia: Ó mulher, não me pise as favas, então querem lá ver, anda uma pessoa com o trabalho de dispô-las, anda uma pessoa a gastar água para regá-las e depois vem esta mulher e pisa tudo. Numa noite, encontraram-na agarrada à testa depois de ter ido de encontro à parede. Ó António, esta macieira é um perigo; se me calha a acertar numa vista ficava para aí cega. Noutra noite, encontraram-na ajoelhada no chão do quarto, a passar as mãos pelo chão do quarto, a passar as mãos pelo chão como se juntasse um monte de terra, dizia: vais ver, há-de nascer aqui uma bela figueira. Quando as enfermeiras a deitavam na cama, tinham de ficar a segurá-la durante alguns minutos porque, se não o fizessem, ela voltava a levantar-se. Durante esse tempo, as enfermeiras seguravam-lhe a roupa da cama com as duas mãos sobre o peito e ficavam a sibilar-lhe um assobio leve: shh, shh. Então, ela acalmava-se e murmurava: temos aqui uma bela horta. Ou, com impaciência, murmurava: o raio dos pássaros. Murmurava: este ano vamos encher o sótão de batatas."

"Demoraram muito tempo para chegar à horta porque Ana e o anjo queriam mostrar a todas as árvores que sentiam falta de vê-las todos os dias. Ana não tocou na terra. Ficou numa ponta da horta apenas a olhá-la e a ver tudo aquilo que recordava. Pensava: a sua vida. Perante aquela terra, pensava que a sua vida era alguma coisa que podia ser agarrada com uma mão. A sua vida não existira nem antes de ter nascido, nem existiria depois de morrer. Perante aquela terra, pensava: a sua vida. Talvez aquela terra  fosse a palma da mão que segurava a sua vida.Os regos que tinha cavado começavam a perder a forma. Havia ervas desconhecidas cobrindo toda a superfície da horta. Ana ficou sentada numa pedra. O anjo aproximou-se para lhe tocar nos ombros. As mãos da criança de luz tocaram os ombros da velha durante tempo. Quando Ana se levantou e caminhou para o monte, não olhou para trás. Acreditou que nunca mais voltaria à horta. Tinha mais de oitenta anos e essa é uma idade de decisões para toda a vida."

Excertos do livro de contos Cal, de José Luís Peixoto.