A RUA DAS HORTAS EXISTE MESMO. FICA SITUADA EM MOURA, NO BAIRRO DO SETE E MEIO.
ESTE BLOGUE É O DIÁRIO DE BORDO DA HORTA COMUNITÁRIA AÍ EXISTENTE. INICIALMENTE ASSOCIADA A UM PROJECTO DE FORMAÇÃO PARA PÚBLICOS DESFAVORECIDOS, COMO ESPAÇO DA COMPONENTE TECNOLÓGICA DO CURSO, A HORTA ENCONTRA-SE AGORA NUMA SEGUNDA FASE. NESTE MOMENTO, ACOLHE ALGUNS DOS FORMANDOS QUE MOSTRARAM VONTADE EM PROSSEGUIR A ACTIVIDADE PARA A QUAL FORAM CAPACITADOS E ESTÁ ABERTA A OUTROS INTERESSADOS EM ACEDER AOS RESTANTES TALHÕES DEIXADOS LIVRES. UNS E OUTROS SÃO RESPONSÁVEIS PELA GESTÃO COMUNITÁRIA DA HORTA, MEDIANTE A OBSERVÂNCIA DE UM REGULAMENTO E CONTRATO DE UTILIZAÇÃO. ESTE PROJECTO CONTA COM A ORGANIZAÇÃO DA ADCMOURA EM PARCERIA COM A CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA, NÚCLEO LOCAL DE INSERÇÃO DA SEGURANÇA SOCIAL, EQUIPA TÉCNICA DE ACOMPANHAMENTO FAMILIAR PROTOCOLO DE MOURA E CENTRO DE EMPREGO DE MOURA. TAL COMO ATÉ AQUI, ESTE É TAMBÉM O ESPAÇO PARA FALAR DE REGENERAÇÃO URBANA, AGRICULTURA BIOLÓGICA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SOLIDÁRIO.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Figos lampos

Uma coisa boa do Verão? A figueira da horta carregada de figos reis de Olivença. De Junho a Setembro, desfaz-se ela em frutos arreganhados, com pérolas de mel, e desfazemo-nos nós, compulsivos apreciadores, em delíquios de prazer. A abrir a temporada, os figos lampos, grados mas esparsos, para pelar e comer frescos. No termo da estação, os figos vindimos, miúdos e em cachos, mais indicados para secar numa esteira de canas e guardar com essências de funcho.  
Por isso mesmo, com Agosto à porta, há que aproveitar os últimos lampos, sem deixar de saborear a magia das manhãs frescas passadas entre as ramagens da figueira. 
E quando já não se vai lá em bicos de pés, resta a cana aberta em forma de roca para alcançar os figos mais distantes. A mesma cana que pode servir para esgrimir com os atrevidos papa-figos, apesar de pouco adiantar: - Viste lo abade? - Lá o vi, lá o vi. - Com'ia vestido? - Ia com'a mi. - Comeste-los figos? - Pois comi, comi! 
Em breve, o tempo dos figos passará o testemunho ao tempo das uvas. Os papa-figos rumarão para latitudes mais a sul e nós iniciaremos também uma longa travessia a suspirar por essas manhãs luminosas. Até que venha outra vez Junho apaziguar a fome de figos frescos.

  "De repente uma das irmãs do cónego perguntou-me em voz trémula:
     - Gosta de figos lampos?
     - Sim, minha senhora, muitíssimo.
     - Por causa deles o fizemos esperar - ajuntou outra.
     - Nós é que os fomos apanhar ao quintal com as nossas lanternas - observou a terceira.
     E cada uma por seu turno:
     - Apanhados de noite são mais frescos.
     - E mais gostosos.
     - Os figos lampos!
     - Os figos lampos!
     - Os figos lampos!
     Cada uma delas repetiu, soluçando:
     - Os figos... lampos... - e depois, à uma, em desatado choro:
     - O que a nossa mãezinha gostava deles!...
     Aqui interveio Monsenhor, lacrimoso também:
     - A nossa boa mãezinha... já... lá...está... já morreu!
     - Não morreu... não morreu... - protestaram elas com ruidoso pranto.
     - Morreu e já... não... come... figos... lampos...
     - Ai! não diga isso, mano, não diga isso...
     - Nós já vamos ver... se morreu...
     - Vamos lá...
     - Vamos lá...
     E as três senhoras levantaram-se e, em gritos feridos, sumiram-se nas trevas do corredor, deixando-me mudo de verdadeiro espanto.
      Mas eu sentia fome e como o cónego recaísse em modorra - sem dar outro acordo de si além do febril movimento dos dedos que enfiava e soltava dos buracos da cadeira - pensei que ao menos havia de provar os tais figos lampos, causadores de tão excruciantes recordações.
     Apalpei no montão, escolhi aquele que me pareceu mais maduro, pelei-o e quando o levava à boca, para que Monsenhor não reparasse tanto na minha sem-cerimónia, digo-lhe:
      - E a mãe de V.Exa. morreu de muita idade?
      - Morreu de... uma cólica... a pobrezinha...
      - Há quantos anos?
      - Morreu hoje... hoje... às duas da tarde...
      - Ó demónio! - soltei eu involuntariamente, deixando cair o figo no chão. - E já se enterrou?
      - Não senhor... Está lá dentro com as visitas... Quer o meu... amigo vê-la... e rezar-lhe um padre-nosso...e uma... avé-maria por alma?...
      - Decerto... E logo sairei em busca de outra pousada, pois compreendo muito bem como deve ser importuna a V.Exas. a minha estada aqui...".

Manuel Teixeira Gomes, "Gente singular" in Gente singular (livro de contos), publicado originalmente em 1909 (3ª edição, Portugália Editora, 1959). Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), natural de Portimão, trocou um curso de Medicina quase concluído pelas viagens pelo mundo, do Norte da Europa a África, do Mediterrâneo à Ásia, enquanto representante da empresa de exportação da família, que haveriam de reflectir-se numa obra literária inovadora e cheia de ironia. Antes de se fixar na Argélia, onde acabaria por morrer, foi Presidente da República entre 1923 e 1925. 



















quarta-feira, 10 de julho de 2013

Cal viva

A ADCMoura - Associação para o Desenvolvimento do Concelho de Moura convida todos/as os/as utilizadores/as da Horta Comunitária de Moura (e todos/as os/as interessados/as) a participarem na caiação do muro e do tanque no dia 20 de Julho, sábado, a partir das 6 horas (para aproveitar o fresco da manhã). Só é preciso trazer de casa um pincel e um recipiente para a cal, que será preparada durante esta semana e ficará a estagiar até ao dia da caiação. Convém ainda vir prevenido/a com luvas e roupa própria para a tarefa. Contamos consigo para tornar a Horta um lugar ainda mais bonito e aprazível. A sua participação é importante! 



Há 2 anos foi assim...






sexta-feira, 28 de junho de 2013

Borda d'Água

Por falar em Borda d'Água, almanaque muito em voga nos últimos tempos, eis a nossa proposta com tarefas para este mês:
Continuam as regas, de manhã e de tarde, as sachas e as mondas.
Capam-se os melões, tomates e pepinos.
Há abundância na horta: colhem-se cebolas, espargos, alcachofras, cenouras, tomates, pimentos,  feijão-verde, alhos, batatas, melões, morangos, etc.
Nos viveiros continuam as sementeiras periódicas de feijão carrapato, alfaces e rabanetes de Verão.
Continua a plantação de tomates, melões, beringelas, pimentos, batata doce.
Limpeza dos espaços e monda de plantas infestantes. Manutenção da pilha de composto.
Rega das plantas aromáticas e medicinais existentes no talude e no canteiro junto à entrada.
Se for ano ímpar, é altura de caiar o muro e o tanque. Colheita dos figos lampos. 

Fotografias da horta, tiradas hoje, 28 de Junho, dia de santo Irineu, entre as 5.48h e as 10.02h.

Feijão-verde alpinista

Uma troika vegetal de tomateiros, couves e abóboras

Tomateiros malabaristas 

Feijão-verde contorcionista

O sol despontou às 6.14h

As nossas vizinhas de posse de uma romãzeira

Cebolas regaladas

A Filipa e o Zé Maria em limpezas prévias à caiação do muro


Um batatal que dá gosto


 
Pimentos, cebolas e tomates trabalhando para o bronze

Geometria de talhões cultivados e talhões em pousio

Tanque com água de nascente: a alma da nossa horta 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O guardião da horta

Entrou na horta no ano passado, por estes dias. Começou por cuidar do seu talhão e em pouco tempo já cuidava de mais dois ou três, de utilizadores que lhe confiavam a rega ou pediam outro tipo de apoio. Preferia ter trabalho acrescido, a ver as parcelas com ervas e descuidadas. Apesar de solícito, fazia-lhe confusão os que não tinham vagar para passar todos os dias pela horta, desculpando-se com o emprego e as obrigações familiares.  Durante o último Verão, como um ritual, todos os dias antes do nascer do sol, saía da sua casa na Mouraria para regar a horta. E sempre que sobrava tempo, para cuidar dos seus criadeiros, modelar regos perfeitos, colher um molho de beldroegas para a sopa ou meia dúzia de tomates para a salada. A meio da manhã tomava o pequeno almoço debaixo da figueira, rendido aos figos lampos que afiançava serem "reis de Olivença". Em Setembro, destinara parte dos figos vindimos à secagem, feita em esteiras de pano estendidas no chão. Gestos e saberes que não tinham segredos para ele e que constituíam, sem o suspeitar, parte de uma herança confiada a sucessivas gerações por um distante antepassado mudéjar, que vivera há muito no seu bairro e tivera uma horta semelhante na várzea do Brenhas. Aproveitava depois a tarde e a sombra da figueira para dormitar. E para engendrar novos projectos para a horta. Como o engenhoso sistema de rega, que concretizou com recurso a condutas, subcondutas e uniões, mais o detalhe da lei da gravidade. Outros projectos, como o reforço da vedação da horta, já não verão a luz do dia com ele por perto, de mangas arregaçadas, boina na cabeça e cheio de energia. Essa mesma energia que contagiava e que nunca deixou prever o desfecho vertiginoso que se seguiu. Neste Inverno, ainda semeou ervilhas e favas sozinho. No início da Primavera, já bastante debilitado, pediu que o ajudassem a cavar a terra para semear batatas. De repente, a enxada, com que sempre lutou, passou a pesar toneladas. Resistiu na horta o mais que pôde, por último sentado na sua cadeira amarela, ainda e sempre burilando planos. Mesmo cercado pela doença, a horta nunca deixou de lhe preencher os dias e as preocupações. Tanto assim que, já moribundo, na cama do hospital, só perguntava pelas suas batatas, que não pôde ver viçosas e floridas. O senhor António deixou-nos ontem e desceu hoje à terra, sempre a mesma terra, como um prolongamento da sua vida, a sua própria vida.     


"À noite, quando se ouvia respirações pesadas e gritos nos corredores, as enfermeiras entravam no quarto para lhe pegarem nos braços e a levarem para a cama. Em camisa de dormir, despenteada, caminhava pelo quarto e, na escuridão, distinguia a horta. Quando as enfermeiras entravam, dizia: Ó mulher, não me pise as favas, então querem lá ver, anda uma pessoa com o trabalho de dispô-las, anda uma pessoa a gastar água para regá-las e depois vem esta mulher e pisa tudo. Numa noite, encontraram-na agarrada à testa depois de ter ido de encontro à parede. Ó António, esta macieira é um perigo; se me calha a acertar numa vista ficava para aí cega. Noutra noite, encontraram-na ajoelhada no chão do quarto, a passar as mãos pelo chão do quarto, a passar as mãos pelo chão como se juntasse um monte de terra, dizia: vais ver, há-de nascer aqui uma bela figueira. Quando as enfermeiras a deitavam na cama, tinham de ficar a segurá-la durante alguns minutos porque, se não o fizessem, ela voltava a levantar-se. Durante esse tempo, as enfermeiras seguravam-lhe a roupa da cama com as duas mãos sobre o peito e ficavam a sibilar-lhe um assobio leve: shh, shh. Então, ela acalmava-se e murmurava: temos aqui uma bela horta. Ou, com impaciência, murmurava: o raio dos pássaros. Murmurava: este ano vamos encher o sótão de batatas."

"Demoraram muito tempo para chegar à horta porque Ana e o anjo queriam mostrar a todas as árvores que sentiam falta de vê-las todos os dias. Ana não tocou na terra. Ficou numa ponta da horta apenas a olhá-la e a ver tudo aquilo que recordava. Pensava: a sua vida. Perante aquela terra, pensava que a sua vida era alguma coisa que podia ser agarrada com uma mão. A sua vida não existira nem antes de ter nascido, nem existiria depois de morrer. Perante aquela terra, pensava: a sua vida. Talvez aquela terra  fosse a palma da mão que segurava a sua vida.Os regos que tinha cavado começavam a perder a forma. Havia ervas desconhecidas cobrindo toda a superfície da horta. Ana ficou sentada numa pedra. O anjo aproximou-se para lhe tocar nos ombros. As mãos da criança de luz tocaram os ombros da velha durante tempo. Quando Ana se levantou e caminhou para o monte, não olhou para trás. Acreditou que nunca mais voltaria à horta. Tinha mais de oitenta anos e essa é uma idade de decisões para toda a vida."

Excertos do livro de contos Cal, de José Luís Peixoto.

















quarta-feira, 15 de maio de 2013

Faixa de compensação ecológica

Por estes dias, ao longo do talude (principal faixa de compensação ecológica) que separa as parcelas superior e inferior, num canteiro junto à entrada ou em redor do tanque existem diferentes espécies de plantas aromáticas e medicinais em flor que tornam a horta um verdadeiro jardim: alecrim, alfazema, santolina, segurelha-de-inverno, salva, tomilho bela-luz, manjerona, tomilho-limão, hissopo, alfazema, tomilho-vulgar, orégão e ainda mentas como o poejo, hortelã e hortelã-pimentaDurante o último Inverno, reforçámos a sua presença através de propagação por estacas radiculares (na maioria dos casos), propagação por mergulhia e propagação por estacas de caule (sobretudo no caso das alfazemas). 
A sua colocação teve como principal objectivo evitar a erosão ou a perda de solo, em especial no talude, que, como se sabe, é tanto maior quanto mais inclinados forem os terrenos. A estratégia passou e passa ainda pela manutenção de uma quantidade suficiente de vegetação herbácea espontânea, que permita a fixação do solo com as suas raízes sem prejudicar o desenvolvimento das plantas aromáticas e medicinais vizinhas, até ao momento em que a densidade destas acabe por controlar o desenvolvimento das ervas espontâneas, substituindo-as em grande medida na tarefa de impedir o arrastamento do solo pela chuva e para os cursos de água. Ainda assim, resolvemos deixar algumas clareiras entre os pés de aromáticas para incentivar a permanência de gramíneas e crucíferas, às quais se atribui um papel fundamental na retenção do azoto solúvel do solo, evitando que seja lixiviado por acção da chuva e possa contaminar os lençóis de água subterrâneos e os cursos de água.   Além do controlo da erosão (retenção da água e conservação do solo), especialmente a erosão hídrica entre Novembro e Março, esta corrente de vegetação aromática revela-se de extrema importância a outros níveis, tendo em conta a horticultura, quer na fixação de populações de insectos auxiliares na polinização e no controlo de pragas, quer na fixação de outros predadores auxiliares, como aves, répteis, pequenos mamíferos, batráquios, etc., quer ainda no embelezamento, reconstrução da paisagem e introdução de diversidade e refrigério.
Foi ainda nossa preocupação apostar em algumas espécies autóctones, como o tomilho bela-luz, associar plantas com diferentes características (diferentes épocas e cores de floração, diferentes alturas e capacidade de densificação, motivos de atracção para diferentes auxiliares, etc.) e construir caldeiras alinhadas na vertical do talude para que durante o tempo de rega, realizada de cima para baixo, não ocorram desperdícios de água.






sexta-feira, 26 de abril de 2013

Poesia na horta

Perfeito, perfeito, teria sido celebrar no próprio dia, o dia da árvore e da floresta, o dia mundial da poesia, o dia em que começa a Primavera. No entanto, vários tipos de compromissos assumidos anteriormente por um e outro utilizador da horta acabaram por não o permitir. Menos mal, mudou-se a celebração para o dia seguinte; mas a previsão de chuva para a tarde, algo a que não estávamos habituados este ano, diga-se de passagem, levou-nos a alterar uma vez mais os planos. Um novo convite seguiu então com a nova proposta de data: 5 de Abril. E à terceira fez-se finalmente a festa, envolvendo hortelãos e familiares dos ditos, ou seja, com a Paula, a Magda, a Rosa, a Elisabete, o Miguel, o João, o Filipe, o sr. António, a D. Isalinda e o Joaquim, que fez o favor de trazer o acordeão. Antes da música entrar em cena a acompanhar a récita de poesia, trocaram-se impressões sobre o presente e o futuro da horta, o que falta fazer e quem fica responsável, falou-se de tarefas colectivas, de gestão comunitária, de participação cívica, acordou-se até construir e partilhar uma plataforma de comunicação usando a internet. Conversados sobre objectivos, metas a atingir e coisas afins, que a alguns cheiraram a modernices, o Joaquim abraçou-se então ao acordeão, num corpo a corpo ritmado que preparou caminho para a palavra dita, na sua forma mais pura. E disseram-se tantas e tão belas palavras, que o apetite sobreveio num crescendo até se tornar incontrolável.   O que vale é que toda a gente veio prevenida, com vinho, pão, queijo e linguiça no alforge. Por acaso, a ninguém ocorreu ler "A defesa do poeta", mas pensando bem nada teria sido mais apropriado do que o poema de Natália Correia, quando diz que "a poesia é para comer". Comamos então estas duas romãs em forma de poema ou estes dois poemas em forma de romã, afinal duas formas únicas de olharmos as romãzeiras da nossa horta.

Fala a romãzeira:
As minhas folhas são como os teus dentes
os meus frutos como os teus seios.
Eu, o mais belo dos frutos,
Estou presente em cada tempo que fizer, em todas as estações.
Tal como o amante junto da amada para sempre,
Ébrio de shedeh e vinho.

Todas as árvores perdem as folhas, todas
Excepto a romãzeira.
Eu sozinha em todo o jardim não perco a beleza,
Permaneço firme.
Quando as minhas folhas caem,
Outras folhas nascem dos botões.

Sendo a primeira entre os frutos
Exijo que essa posição seja reconhecida,
Não aceitarei um segundo lugar.
E se houver de novo algum insulto
Não haveis de ouvir dele o seu final.  

Egipto (1567-1085 a.C.)

As Romãs

Duras romãs entreabertas
Pelo excesso dos grãos de ouro,
Eu vejo reis, todo um tesouro
Nascer de suas descobertas!

Se os sóis de onde ressurgis,
Ó romãs de entrevista tez,
Vos fazem, prenhes de altivez,
Romper os claustros de rubis,

E se o ouro seco cede enfim
Ante a demanda ainda mais dura
E explode em gemas de carmim,

Essa luminosa ruptura
Faz sonhar uma alma que há em mim
De sua secreta arquitectura.

Paul Valéry (1871-1945) 

Nota: Esta iniciativa é parte integrante do projecto "Eu participo! Moura também é comigo - Espaço de Participação Cidadã / Moura: Cidade e Território", que se insere no Plano de Acção "Regeneração Urbana do Centro Histórico de Moura (Regulamento Política de Cidades - Parcerias para a Regeneração Urbana)".
Esta iniciativa é também a primeira de um total de vinte para comemorar os 20 anos da ADCMoura (1993-2013). 



Estão todos convidados.


A mesa posta, porque a poesia é para comer.


Aproximem-se que a festa vai começar.


Uma moda para aquecer o ambiente e as gargantas.


O sr. António atirando-se a um fado como ninguém.


Agora a cantoria já é outra.


Um poema feito de propósito para a ocasião.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Beringelas & companhia

1.
Além de presentes na nossa horta, o que têm em comum a beringela, o tomate, o pimento e a batata? Serem frutos e tubérculo de plantas da mesma família, a família das Solanaceae, que inclui outros membros nada recomendáveis como é o caso do tabaco, da mandrágora e da beladona, sobejamente conhecidos pela sua elevada toxicidade. Não por acaso, um dos compostos dos quatro vegetais comestíveis é...a nicotina! Assim sendo, chegará o dia em que ficará provado que a nicotina ingerida é tão nociva quanto a inalada, e nessa altura surgirão certamente, depois dos restaurantes sem fumo, os restaurantes livres de solanáceas. Nunca se sabe, mas um hálito a solanáceas pode constituir um perigo redobrado para a saúde pública.  

2.
Taxonomias e vulgares de Lineu à parte, o tomate, o pimento e a batata têm costela do Novo Mundo, enquanto a beringela mergulha as suas raízes no sub-continente indiano. De onde foi trazida pelos árabes para a Península Ibérica, depois de difundida na Pérsia, China e Etiópia. No Andaluz, a beringela, ingrediente base das mais requintadas receitas e a que se atribuem efeitos afrodisíacos, além de outras crenças prodigiosas, parece estar sobretudo presente nos grandes centros urbanos, produzida em grandes hortas como as de Múrcia, Córdova, Granada, Sevilha, Valência ou Santarém. Como bem exalta Ibn Sara Assantarini (justamente um filho da capital ribatejana), num poema dedicado à beringela, "é fruto (...) alimentado por água abundante em todos os jardins".

3.
Já no Garbe remoto, nos actuais territórios rurais do interior do Alentejo e Algarve, não é de crer que a sua difusão e consumo tivessem sido muito expressivos, a avaliar pela exiguidade de grandes manchas regadas e escassa aptidão agrícola dos terrenos. Só em hortas e veigas, como as de Moura, se encontrariam condições para o seu cultivo ser bem sucedido, destinado essencialmente ao auto-consumo e abastecimento dos mercados locais. 

4.
Como quer que tenha sido, ou por razões ecológicas, ou pelo facto do regime alimentar das populações autóctones, marcado por tradições ancestrais e influências do legado romano, se basear em grande medida no consumo de cereais (trigo e cevada), leguminosas cultivadas (fava, chícharo, tremoço, grão, ervilha e lentilha) e ainda de plantas espontâneas (labaças, cardos ou beldroegas), confinando, assim parece, o consumo da exótica beringela ao quadro do quotidiano alimentar das populações islamizadas, ou por razões que a associaram a produto maligno e herético dada a sua popularidade entre muçulmanos e sefarditas, ou considerando a dificuldade do seu cultivo e confecção, ou ainda por não gozar de um especial apreço gastronómico pelo seu insípido sabor e piores digestões, por estas hipóteses ou por nenhuma delas, o que é certo é que a beringela não conseguiu afirmar-se na dieta alentejana, a ponto de não figurar no receituário regional, o que não deixa de ser surpreendente.
E, no entanto, foi a beringela, muito antes da batata, do tomate e do pimento, que primeiro surgiu no território que é hoje o Alentejo, em receitas simples ou requintadas, em combinações com outros vegetais ou carnes, em conserva, recheada, gratinada ou frita, depois de passada por ovo e farinha. 

5.
No século XVI, é a bordo dos galeões espanhóis que a beringela chegará às índias Ocidentais para uma história de sucesso, os mesmos galeões que na torna-viagem trarão os seus três parentes até à Europa para igual senda vitoriosa.  Esta novidade desencadeará uma revolução nos hábitos alimentares do Velho Continente, a que a cozinha alentejana não escapará. De entre o trio recém-chegado à região, destaca-se o tomate, a princípio olhado com desconfiança por ser considerado fruta tóxica e de ruim qualidade, mas que aos poucos vai convencendo os mais cépticos até ganhar o estatuto de indispensável em sopas, tomatadas, cozidos, refogados e afins. Outro que veio para ficar é o pimento, "mejor que pimienta" como escreveu Cristóvão Colombo. Vermelho ou verde (agora também em outras variantes benetton), foi reforçando a sua posição entre os ingredientes mores e hoje é referência primeira no tempero da carne de porco. Quanto à cultura da batata, entrou tardiamente no Alentejo e manteve-se até hoje residual devido a escassez de mão-de-obra e de terrenos regados que por aqui se verifica. Mesmo assim, para a posteridade ficaram receitas de sopas, migas e ensopados.

6. 
Neste Verão criámos condições para que a família Solanaceae se reunisse na horta, como um "ponto de encontro" de velhos primos que há muito não se viam. Na hora da colheita, tirámos tomates para gaspachos e tomatadas, pimentos para saladas de todo o género, batatas para acompanhar o ensopado ou engrossar a sopa... e quando chegou a vez das beringelas, imagine-se, ficámos com elas quentes nas mãos, sem saber muito bem que destino lhes dar, pois, como vimos, não havia receitas alentejanas que nos pudessem acudir. Entre criar umas migas arriscadas de beringela e jogar pelo seguro, acabámos a destapar o melting pot das cozinhas do mundo, numa sucessão de inefáveis ratatouilleduvec, mussaká, imam bayildi...,ou seja, pratos onde a presença da beringela é sagrada. Mesmo assim, não ficámos consolados. À medida que avançávamos por cozinhas mais orientais, demo-nos conta de que a batata, às vezes, e o pimento, outras vezes, não constavam das receitas à base de beringela. Subimos então a fasquia, e, num assomo de querer voltar a juntar plenamente a família desencontrada, fixámos o objectivo de reunir, não apenas na horta, mas à mesma mesa, e no mesmo tacho, a beringela, o tomate, o pimento e a batata. Foi assim que, animados de espírito ecuménico e depois de dias a vasculhar, identificámos o coktail de nicotina que dá pelo nome de Caçarola de hortaliças à napolitana, o tal que confere igualdade de oportunidades, como agora se diz, aos quatro vegetais, nas proporções seguintes (para quatro pessoas): 500 gramas de beringelas, 2 pimentos, 4 tomates, 600 gramas de batatas. Ainda com a vantagem de  termos juntado fumadores e não fumadores amigos à mesma mesa.

A Beringela

É um fruto de forma esférica de agradável gosto
alimentado por água abundante em todos os jardins.

Cingido pela carapaça do seu pecíolo
parece um coração vermelho de cordeiro
entre as garras de um abutre.

Abú Mohâmede Abdalá ibne Sara (Assantarini), natural de Santarém, e que viveu nos séculos  XI e XII, "é um dos poetas mais originais e inspirados do seu tempo", como refere António Borges Coelho no seu indispensável Portugal na Espanha Árabe, de onde este poema foi tomado de empréstimo.


Beringelas da horta comunitária



Tomates da horta comunitária



Batatas da horta comunitária



Pimentos da horta comunitária